Opinião

O totalitarismo está de volta e os influencers são a nova PIDE

Rita Matias


Na mesma semana em que o Parlamento português revoga a intenção socialista de criar mecanismos de “policiamento” da liberdade de expressão, no âmbito da Carta de Direitos Digitais, vemos uma polémica demonstrar a ausência de um direito primário: o direito a não ser “cancelado”.

Miguel Milhão, fundador e CEO da Prozis, constatou no seu LinkedIn que o reconhecimento, por parte do Supremo Tribunal americano, de que o aborto não pode ser um direito constitucional [como não o é em Portugal], é a recuperação dos direitos dos bebés por nascer nos Estados Unidos. A reacção pouco surpreendente por parte de influencers, jornalistas e figuras públicas foi de tentativa de cancelamento da marca, rescindindo contratos e partilhando estados de alma nas suas redes sociais. Figuras essas que se sentem de tal forma os paladinos da defesa dos direitos humanos que não se coíbem de negar direitos a humanos que ainda estejam num útero ou que tenham visões diferentes das suas. Mas a hipocrisia não fica por aqui. Estas figuras publicitam e adquirem diariamente produtos e bens, por exemplo, cosméticos, testados em animais ou fruto da exploração infantil, o lado negro da indústria da moda. Mas tudo isto já não perturba o espírito dos influencers do “bem”. E se Miguel Milhão, pela coragem de defender aquilo em que acredita, aliada ao sucesso do seu percurso profissional, pode afirmar que não podem cancelá-lo, o cidadão comum já não o pode dizer. Assiste-se diariamente ao silenciamento, à censura e ao desprezo por qualquer cidadão que num espaço público ou numa rede social ouse exprimir um posicionamento divergente da narrativa dominante. É caso para dizer que pairam no ar os fantasmas de regimes totalitários e autoritários que tão depressa eliminavam vidas no útero ou de pessoas com incapacidades como a de qualquer pessoa que exprimisse posicionamentos divergentes dos do regime.

Não admira que o PS revogue agora os instrumentos pidescos que pretendia criar, em que qualquer cidadão poderia ser punido por partilhar narrativas consideradas falsas por organismos mandatados pelo Estado. Estes artigos de censura podem ser todos revogados, porque o Estado já não precisa de “sujar as mãos”. O polvo está criado e tem cada vez mais tentáculos em cada órgão de comunicação social que não se mostra isento face ao poder político e em cada figura pública que incentiva e promove uma cultura de cancelamento e o atentado às liberdades individuais.

Numa nota final, e como caricatura do exposto, importa sublinhar que, ao contrário do divulgado, o aborto não foi banido dos Estados Unidos. Passou só a ser regulamentado na esfera estadual que, na maioria dos casos, é bem mais permissiva do que na Europa e em Portugal. Assim sendo, qual o interesse da comunicação social “independente” e “sem agenda própria” na mediatização massiva deste tema e na desinformação veiculada neste caso? Responda em consciência o caro leitor.