Opinião

O risco de uma geringonça 2.0 (pior do que a primeira)

Ricardo Ferraz


O debate entre os líderes do PS e do PSD veio demonstrar que António Costa está cansado de governar sem maioria no Parlamento. A sua postura fez lembrar a daquele sujeito que está completamente desmotivado no seu emprego e que já só está à espera da oportunidade certa para mudar de vida.

Pela trabalheira que acha que teve ao longo dos últimos anos a aturar o BE e o PCP, Costa quer que os portugueses o recompensem com uma maioria absoluta. Sabe, no entanto, que tal não irá acontecer e que só é possível um de dois cenários (que evita discutir publicamente): 1) O PS vence as eleições mas sem obter uma maioria de deputados no Parlamento; 2) O PSD vence as eleições, também sem maioria.

Dado que já não confia em Catarina Martins e em Jerónimo de Sousa, como, aliás, ficou bem patente nos debates, então, no caso de se materializar o primeiro cenário, o líder do PS conta que o PSD lhe viabilize o programa de governo (ao contrário daquilo que ele próprio fez em 2015 a Pedro Passos Coelho). Pouco depois voltará a apresentar ao Parlamento o Orçamento do Estado para 2022 (que orgulhosamente exibiu no debate com Rui Rio), esperando que o PSD o viabilize desta vez. Acredito que tentará negociar com o mesmo nível de intransigência com que negociou com os líderes do BE e do PCP, provocando a ruptura. Se o Orçamento for chumbado, então demitir-se-á e passará a bola ao seu sucessor, que deverá ser Pedro Nuno Santos. Nesse caso, as portas do BE e do PCP estarão novamente abertas para o PS e existirá uma nova geringonça que contará com bloquistas no governo (o que é previsível, tendo em conta as ambições políticas daquele partido e a sua proximidade a Pedro Nuno). Já António Costa, que é um político habilidoso, abraçará certamente um desafio melhor noutro lado.

No caso de se verificar o segundo cenário, aquele em que o PSD vence as eleições mas sem maioria, Costa demitir-se-á e passará logo a bola a Pedro Nuno. E se Rio não obtiver uma maioria parlamentar com as forças à sua direita, o novo líder socialista não o deixará governar e construirá uma nova geringonça com bloquistas no governo.

Parece óbvio que a única forma de evitar uma geringonça 2.0, pior do que a primeira, pois o BE estaria no governo, implica que o PSD vença as legislativas e consiga formar uma maioria parlamentar com as forças à sua direita. Se não queremos correr o risco de ter a extrema-esquerda a governar e a impor, ainda mais, a sua agenda ideológica à maioria dos portugueses, então, no dia 30 não podemos mesmo ficar em casa.

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