Opinião

O Presidente comentador

Diogo Agostinho


O cargo de Presidente da República é, de todos, o mais fácil e complexo que existe. Fácil porque não executa no dia-a-dia, não lhe cabe governar. Tem um palácio e uma equipa de apoio na sua Casa Civil. Recebe, às quintas-feiras, o primeiro-ministro. Representa Portugal, cá e no estrangeiro. Recebe chefes de Estado. Não é pouco e não é apenas isto. O Presidente deve ser sempre a salvaguarda do bom funcionamento do regime democrático, ou seja, o garante do regular funcionamento das instituições.

O Presidente é o representante máximo do nosso povo. Só lá chega com, pelo menos, 50% e mais um voto do resultado eleitoral. Ou seja, não há geringonças, nem manhas partidárias para se chegar ao cargo do chefe de Estado. Aqui é preciso ganhar mesmo.

Serve esta pequena introdução para chegarmos a Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente dos afectos. Chegou com uma certa aura. Foram 15 anos aos domingos a fazer-nos companhia ao jantar. Os tiques, os maneirismos, as intrigas, a facilidade de transformar problemas complexos em simples conversa de café. Era o Senhor Professor. Num país em que o descrédito abunda, isto foi fundamental para a sua caminhada presidencial. É, talvez, das pessoas mais brilhantes que o país tem. Ficou a faltar o exercício do cargo de primeiro-ministro. Não sei se o país aguentaria a adrenalina e o frenesim, mas ficou a faltar.

Hoje, é o Presidente da República. Poucos são os portugueses sem uma selfie com o Senhor Presidente (eu tenho). Tem um lado humano, de toque, de chegar perto que muito poucos políticos conseguem. Mas tem um lado analítico, demonstrado em anos e anos de comentário, que não larga. Teve, na semana passada, uma das suas piores semanas. De um lado, recebeu recados do primeiro-ministro; do outro, foi alvo de um ataque feroz de Francisco Pinto Balsemão.

Ora, o poder do Presidente resume-se a duas grandes ferramentas. A “bomba atómica” e o poder da palavra. Se a palavra é usada de forma banal, está nos livros, desgasta-se, perde o seu valor e, consequentemente, a ressonância na comunidade nacional. E este mandato, com a TV Marcelo sempre ligada, retira, e muito, a força da palavra a este Presidente.

Todavia, e mais uma vez, o instinto de escorpião político veio ao de cima. Marcelo não resistiu a marcar a data de saída do actual primeiro-ministro. Ora, se o analista político Professor Marcelo, ao domingo, poderia dizer que Costa não se recandidataria, o Presidente Marcelo nunca, por nunca, poderia ceder a estados de alma, comentários avulsos, com mais on ou mais off. Já sabíamos que Marcelo falava através de Marques Mendes e de Ângela Silva. Não podia, num momento de cedência à picardia política, cair na tentação de destapar o comentador político que vive dentro de si. Por isso, deixo o meu singelo apelo: seja Presidente, nós precisamos da sua autoridade intacta.

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