Opinião

O povo tem sempre razão

André Pardal


À semelhança do que vem acontecendo, de há alguns anos a esta parte, um pouco por toda a Europa, mas também no Brasil, Estados Unidos (com o fenómeno Trump) ou mesmo na Índia, uma líder populista (mas não só), e sem ser de esquerda, foi a grande vencedora das eleições italianas e será a próxima primeira-ministra italiana.

Sendo mulher, não poderá nunca ser acusada de misógina ou machista, mas, lá como cá, a esquerda woke não conseguiu – sequer – apresentar até hoje alguma candidata ao cargo, quanto mais disputá-lo. É a vida, como diriam alguns, mas bem sintomático da sua histórica incoerência.

Fenómenos populistas e extremistas, sejam eles de esquerda ou de direita, sempre grassaram – ao longo da História – na miséria económica, social ou de quem, como recentemente aconteceu em Portugal, lhes deu palco e poder por mera táctica de sobrevivência pessoal e política.

Centrando-nos na subida gritante, aos dias de hoje e em vários países democráticos, dos partidos de extrema-direita, mais do que demonizá-los ou aos seus eleitores, vale a pena tentar entender o fenómeno.

E, por muito que custe a uma “elite” que vive alheada da realidade da maioria dos seus concidadãos, este deve-se, acima de tudo, ao fracasso dos partidos moderados e à descrença dos cidadãos nestes, longe que vão os tempos (e memórias) dos tenebrosos tempos dos diversos ismos.

Mais do que colocar rótulos em partidos e, principalmente aos seus eleitores, vale a pena entender (hoje como ontem) o que leva uma grande maioria de cidadãos da terceira economia da zona euro a votar massivamente em partidos que não renegam o “fascismo” que dizimou a Europa há “apenas” 80 anos.

Desde logo, o cansaço relativamente ao desgaste do regime democrático. Fenómenos como o compadrio, o sentimento de (in)justiça, a corrupção ou a falta de alternância (mais de políticas do que de políticos) levam a que cidadãos (muitos deles em desespero de causa) ou se abstenham ou votem no que outrora foram os “amanhãs que cantam” e que hoje, curiosamente, oscilam para o outro extremo do espectro político.

Por outro lado, os excessos da esquerda na governação, principalmente nas “novas causas sociais”, a nova “ditadura” do politicamente correcto e o despropositado protagonismo (e intromissão) de causas/políticas de minorias, mais ou menos organizadas, no dia-a-dia do comum dos mortais, que pretende apenas concretizar o seu projecto de vida, em liberdade e com a máxima felicidade.

E, por fim, o fracasso dos partidos moderados tradicionais, em particular do centro-direita e da direita democrática, que, olvidando os seus eleitorados, apenas no capítulo económico (para não dizer contabilístico) se distanciaram (e digladiaram) dos partidos à sua esquerda, bem mais doutrinários e transversais na acção política.

A forma como a direita democrática e o centro-direita lidaram (ou não), nos últimos anos, em fulcrais áreas como a segurança interna, a justiça ou a defesa, nas suas mais diversas vertentes, não é mais do que um dínamo para fenómenos extremistas.

Como bem disse, a este propósito, Marcelo Rebelo de Sousa, o povo tem sempre razão. Cabendo aos partidos políticos, e seus representantes, percepcionar os sentimentos dos seus concidadãos para que a moderação triunfe, antes que seja tarde.