Opinião

O povo não é palerma

E o povo decide sempre pela mudança, mostrando sucessivamente o seu desagrado pelo ‘não feito’, numa heroica esperança- diz que é a última a morrer - que o cenário mude e o cenário é este: um terço da população vive com menos de US$1,90 por dia, abaixo da linha internacional de pobreza, e mais de dois terços da população é pobre, utilizando a linha de pobreza mais elevada do Banco Mundial de US$3,20 por dia.

Nilza Rodrigues


Grita o povo, ou parte dele, em São Tomé e Príncipe, 24 horas depois do ato eleitoral.

O país foi a votos na semana passada para três disputas eleitorais em simultâneo: as legislativas, as autárquicas e a regional. Ou seja, para eleger 55 deputados da Assembleia Nacional, seis presidentes de câmara e quem vai governar a Região Autónoma do Príncipe. Mas não fosse o superior ato democrático de Votar, a verdade é que já se sabia, sabe-se sempre de antemão, que o mesmo partido não cumpre mais do que uma legislatura em STP, sendo este o segundo Governo cumprir ciclo desde da implementação dó multipartidarimos . É cíclico. Quem está no poder diz que não teve tempo para mostrar. Quem está na oposição diz que teve mais do que tempo e não o fez. E o povo decide sempre pela mudança, mostrando sucessivamente o seu desagrado pelo ‘não feito’, numa heroica esperança- diz que é a última a morrer - que o cenário mude e o cenário é este: um terço da população vive com menos de US$1,90 por dia, abaixo da linha internacional de pobreza, e mais de dois terços da população é pobre, utilizando a linha de pobreza mais elevada do Banco Mundial de US$3,20 por dia. 97% do Orçamento do Estado assenta na ajuda externa e 75 % da população tem menos de 20 anos, algo não inédito em África e que até o posiciona como o continente do futuro, mas qual futuro se não há pão, formação, emprego, não há estratégia nem visão? Mas tem uma taxa de alfabetização infantil das mais altas do continente e talvez a maior dos palops As sucessivas mudanças de governo que até poderiam ser um indicador de proatividade governativa só demonstram uma clara falta de entendimento e desarticulação sobre questões de interesse comum, provocam instabilidade política e permitem que os governantes se refugiem no fraco argumento de que “não tiveram tempo de implementar”. Mas manter o mesmo que não satisfaz os interesses de um povo cansado é outro dilema. Uma encruzilhada para os 123 mil eleitores - num total de 215 mil habitantes - pela primeira vez a diáspora votou nas legislativas que tiveram de decidir entre 11 partidos em jogo, um dos quais constituído apenas três meses antes do ato eleitoral.

Acresce que o orçamento da Comissão Eleitoral Nacional para a realização das eleições foi de cerca de 1,3 milhões de euros, tendo contado com contribuições de vários países, incluindo Portugal, União Europeia e Nações Unidas. Já faço minhas as palavras de João Carlos e Silva, o chef sãotomense, que sem papas na língua, sugere o uso da verba para a criação de pequenas e médias empresas. Não iria tão longe. É relevante o facto de São Tomé e Príncipe ter sido o primeiro PALOP a fazer a transição democrática, em 1990. E as eleições, de 4 em 4 anos, são um reflexo importante dessa conquista. E desde então já teve 14 governos Mas já se percebeu que de cima, não há esse mood, falha o sentido de Estado, pelo que terão de ser os próprios empresários, pequenos que sejam, a arregaçar mangas e mudar este paradigma. E vamos começar pelo cacau, é sempre um bom começo num arquipélago que é reconhecido internacionalmente pela qualidade do produto e porque, em bom português, é também disso que o País precisa. Cacau.