Opinião

Ó Portugal, se fosses só três sílabas recicláveis

Leonardo Ralha


Neste Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas houve comemorações nas cidades de Braga e de Londres, com toda a pompa e circunstância devidas à nação valente e imortal que já contava mais de quatro séculos quando o poeta assinalado salvou o ainda incompleto manuscrito d’“Os Lusíadas” no naufrágio do navio em que seguia de Macau para Goa.

Sem direito a feriado, o mais contemporâneo poeta surrealista Alexandre O’Neill estava menos interessado em viver na indigência e ganhou sustento enquanto publicitário. A essa prudência devemos, entre outros slogans famosos dos anos 1960 e 1970 — incluindo o malicioso “Bosch é bom”, que tantas vezes lhe é atribuído —, o “há mar e mar, há ir e voltar”, encomendado pelo Instituto de Socorros a Náufragos.

Além deste ponto de contacto entre compatriotas separados por quatro séculos, deve-se a Alexandre O’Neill um poema, escrito na fase final do Estado Novo, que persiste em ser tão simbólico de uma portugalidade real quanto “as armas e os barões” o são de uma portugalidade aspiracional. Por entre referências que atravessam a “linda vista para o mar”, “o sal, o sol, o sul”, “a rechinante sardinha”, a “bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço” ou “o calendário na parede, o emblema na lapela”, no poema intitulado “Portugal”, a dado momento proclama Alexandre O’Neill: “Ó Portugal, se fosses só três sílabas/ de plástico, que era mais barato!”

Dando de barato que caso o poeta tornasse ao mundo que deixou em 1986 podia ser convencido a optar por um material mais amigo do ambiente, como o bambu dos talheres que vão tomando o lugar do plástico, a redução a três sílabas do seu país, que rotulou de “meu remorso de todos nós”, tornou-se dolorosamente apropriada nestes últimos dias.

O encerramento das urgências de obstetrícia em hospitais de grandes centros urbanos, prontamente desculpado por um fim-de-semana prolongado que os calendários teimosamente denunciavam sem que a tutela tenha dado conta disso, a visão terceiro-mundista das intermináveis filas nos aeroportos de um país que vê no turismo uma das suas principais riquezas e as greves cada vez mais frequentes que fustigam inícios e finais do dia dos utentes dos transportes públicos consorciam-se enquanto sinais claros que o próprio Camões discerniria mesmo que tapasse o olho esquerdo.

Quase 50 anos depois do fim do regime alicerçado no imaginário d’“Os Lusíadas” — expurgado do canto IX, referente à Ilha dos Amores — e que se traduzia no país barato, de plástico e trissilábico de O’Neill, esse Portugal insuficiente foi-nos devolvido nos telejornais vistos pelos afortunados que não se depararam com ele mesmo “ao vivo”, à porta da urgência fechada onde qualquer um pode sentir-se náufrago mesmo que o mar pareça distante.

Depois do Dia de Portugal seguem-se os dias dos portugueses, entregues a governantes que ficaram sem álibi parlamentar, vêem desgastado o álibi pandémico e terão de reciclar. Ou, então, de resolver os problemas.

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