Opinião

O poder de Carla Castro e os alertas de Cotrim Figueiredo

João Martins Leitão


No seu livro “O Paradoxo do Poder”, Dacher Keltner, leva-nos a descobrir a ciência do poder, não tanto do formal, mas mais das bases biopsicossociais do mesmo. Explica-nos como ganhamos e perdemos influência; o que é efectivamente o poder; como é essencialmente concedido e não tanto conquistado; como se mantém pelo foco no serviço aos outros; de onde surgem os abusos de poder.

O que é efectivamente o poder? No senso comum, tendemos a definir poder como capacidade coerciva. Se é verdade que um executivo governativo ou empresarial, um líder partidário, um juiz ou um rico e famoso, têm algum ou muito poder coercivo, isso não basta para explicar o poder, e pouco ou nada nos diz sobre como acedemos ao poder, como o podemos ampliar, ou simplesmente manter.

A definição de poder do autor acrescenta e redefine-o como algo que todos usamos nas nossas relações interpessoais, por exemplo, no acto geral de dar oportunidades a outros ou de acalmar um colega que acabou de ler sobre outros alertas de Cotrim Figueiredo. O poder é, assim, não restrito a uma pessoa ou pequeno grupo, mas algo disponível para todos: fazer uma diferença positiva no mundo, servindo outros e influenciado-os por essa via.

Conseguimos já especular sobre as fontes de Carla Castro. O poder é concedido? Acedemos ao poder porque ele é-nos concedido pelos outros, aqueles que estamos a servir numa família, numa empresa, num partido político, ou num país. Nas sociedades ocidentais, oferecemos provisoriamente o poder, diz o autor, a quem promova o bem maior, não a maquiavelistas coercivos e violentos. Assim, a reputação, constantemente negociada pelo poder de todos, é crucial.

Como é mantido o poder? Depois de acedemos ao poder, o que fizermos com ele, ditará o nosso destino. Para o manter só há uma via: uma continuada dedicação aos outros com sabedoria. Perder a dedicação aos outros tende a diminuir a empatia e a compaixão, a comportamentos anti-éticos e anti-sociais e a, mais tarde ou mais cedo, perder o poder.

Falemos um pouco da Iniciativa Liberal. Horas depois do duplo anúncio de Cotrim de Figueiredo e de Rui Rocha, um dos membros da Comissão Executiva demissionária, entendeu que deveria partilhar comigo o que se passava de menos positivo naquele órgão e no partido, confirmado por outros membros de órgãos nacionais, que resumiria da seguinte forma: o ex-presidente, presidente que se demitiu, ou presidente demissionário, acedeu ao poder, entregou resultados pelos quais estou grato, mas não usou o poder liberal com sabedoria. Errou ao usar a influência do seu histórico de resultados e carisma para “escolher” um sucessor. Foi pouco liberal ou iliberal, como preferirem. Abusou do poder? Este foi para mim o alerta de Cotrim Figueiredo que mancha, contamina o sucessor designado e o “núcleo duro” que o apoia.

Onde está o poder de Carla Castro? Como é que alguém que não teve o apoio de Cotrim Figueiredo, Ricardo Pais Oliveira, António Costa Amaral, Miguel Rangel e Bruno Mourão Martins, nem da maioria dos deputados do grupo parlamentar, pode ambicionar ser líder da Iniciativa Liberal? Como é possível poder ganhar as próximas eleições para a Comissão Executiva?Ao contrário de outros, o poder de Carla Castro reside em ser muito mais do que alguém que é muito competente a entregar resultados na forma de ideias e propostas políticas. O poder de Carla Castro está na forma como serve os outros, como trabalha com os outros, como eleva quem está ao seu lado. O sucesso que tem nas bases, onde verdadeiramente reside o poder, deriva de ter demonstrado inequivocamente que consegue unir, desenvolver equipas, incentivar, co-criar com todo o tipo de perfis, de todos os pontos do país. O poder de Carla Castro está em sabermos e sentirmos que é a candidata com melhores capacidades para liderar para dentro, para fora e num futuro Governo de Portugal.