Opinião

O poço do elevador social

Ana Pedrosa-Augusto


É frequente ler-se e ouvir-se a expressão “o elevador social está avariado”. Infelizmente, é verdade para muitos. Mas temos algo ainda pior: 10% da população nacional que trabalha – e sublinho o “que trabalha” – vive abaixo do limiar da pobreza. Isto não é estar preso no elevador. Isto é nem sequer ter entrado nele porque se caiu no seu poço.

Eu sou permanente adepta e sempre parte da claque do trabalho, esforço e dedicação como forma de alcançar mais, de atingir objectivos, de subir na escala que traçamos para nós. E, claro, as condições de partida são relevantes neste percurso.

Por isso, a minha utopia (ou uma das minhas utopias) seria poder dizer que, no meu país, a desigualdade das condições de partida determinaria apenas mais ou menos trabalho – leia-se, tempo – no alcançar de objectivos ou no percorrer do caminho. Hoje, todavia, não vejo bem como isto pode ser possível.

É que, na realidade, pessoas que trabalham vivem pobres.

Pessoas que se esforçam vivem pobres.

Pessoas que trabalharam uma vida inteira vivem pobres.

Crianças que nascem neste seio vivem pobres e dificilmente quebram o ciclo de pobreza.

Discutem-se muitos temas na cena política e cívica diária e a pobreza e a sua erradicação deveria ser um daqueles que não saem do ciclo noticioso, mas não encontram furo na agenda. Deveria ser um debate maior do que a esgrima entre a repetida e exausta reacção ideológica esquerda-direita. Tem de existir um olhar sério e, na medida do possível, imparcial sobre as causas desta pobreza e sobre a forma de permitir a saída dela.

Há que ouvir quem sabe, acompanhar quem faz e apoiar quem necessita.

Foi agora mesmo aprovada pelo Governo, no último dia de Setembro, a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030. O documento, que está em consulta pública apenas até 25 de Outubro próximo, tem pouquíssimo enfoque na educação, pilar central deste combate, e contém propostas como:

“Reforçar a oferta de habitação com renda acessível para jovens, designadamente através da reabilitação do património imobiliário do Estado com aptidão para uso habitacional para criação de um parque habitacional público a preços acessíveis”, ou

“Promover uma política salarial adequada, ancorada na promoção da negociação coletiva e sustentada por instrumentos que permitam diminuir a taxa de risco de pobreza dos trabalhadores e trabalhadoras e reduzir as desigualdades no emprego, em particular as salariais, através da promoção de melhores salários, incluindo a valorização da retribuição mínima mensal garantida e das condições de trabalho, mas também do, eventual, incentivo a leques salariais menos desiguais, bem como de uma maior progressividade e equidade no plano fiscal”, ou ainda

“Reconhecer com nitidez e pedagogia o sentido do combate à pobreza nas condições contemporâneas.”

Percebe-se que, assim, dificilmente chegaremos lá, até porque ainda falta concretizar as medidas. E nem discuto o teor ideológico destas linhas. Questiono, sim, a sua praticabilidade e exequibilidade.

Lamento, assim, considerar que este será mais um plano daqueles que tem eixos e objectivos, mas que dificilmente sai do papel. E nós, enquanto sociedade, devemos às crianças que vivem em pobreza as condições para que elas consigam dali sair.

Talvez percebendo isto mesmo, Marcelo Rebelo de Sousa apelou recentemente à bondade dos cristãos para o combate a este flagelo. Pois o meu apelo é à bondade de todos, independentemente da sua fé religiosa ou falta dela. É que há crianças presas no poço do elevador. E cabe a todos nós estender a mão para que dele saiam.

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