Opinião

O picanço de Rio

Diogo Agostinho


A noite de ontem foi uma surpresa. Não há outra palavra. Poucos esperavam o resultado que aconteceu no PPD/PSD. Porquê? São muitas as razões.

Rui Rio lidera o partido desde 2018. Depois de um líder forte como Pedro Passos Coelho, Rio, que já tivera responsabilidades no Porto, como presidente da câmara municipal, mas também com as lideranças de Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso, Pedro Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite, tendo feito parte dessas direcções, chegou a líder do PSD e lá se aguenta com resultados internos.

Com um estilo próprio, com um discurso muito populista, quando picado, é alguém que consegue reunir à sua volta – falo dos seus apoiantes – uma grande quantidade de dirigentes fora da Grande Lisboa. Esta é, sem dúvida, uma das razões da percepção que existe e da realidade final.

Volto ao discurso populista. Não é segredo nenhum que, antes de ser director-executivo do NOVO Semanário, apoiei, nas duas eleições internas do PPD/PSD, dois opositores de Rui Rio. Falo de Pedro Santana Lopes e de Miguel Pinto Luz. Sublinho o apoio e acrescento o orgulho. Em ambas as eleições, sabia da dificuldade que as mesmas teriam. Primeiro, por Rui Rio ser a novidade relativamente a Pedro Santana Lopes. Nunca fora presidente do partido e era, segundo alguém me disse na altura, bem mais populista que Pedro Santana Lopes. É uma constatação. E venceu essa primeira eleição.

Na segunda, com Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz, Rui Rio conseguiu garantir a continuidade na liderança. Na altura, Luís Montenegro, que deveria ter sido candidato em 2018, não deslumbrou, e Miguel Pinto Luz foi uma terceira via geracional que colocou uma bandeira de esperança para o futuro dizer presente.

Hoje, contra Paulo Rangel, Rui Rio voltou a vencer. Ora, é uma vitória sua. Mas era bom que se deixasse de lado, por favor, a ideia do voto livre e a derrota dos dirigentes. Ora, então o que são Salvador Malheiro, José Silvano, Alberto João Jardim, André Coelho Lima, David Justino, Carlos Eduardo Reis, Rui Cristina, João Montenegro e tantos outros nomes? E o que são os deputados que apoiaram Rui Rio? São militantes e dirigentes. São pessoas que conhecem o aparelho como ninguém. E isso é mau? Ou só do outro lado é que estão os “maus”?

A votação que aconteceu foi renhida. Como já fora contra Pedro Santana Lopes, Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz, e agora contra Paulo Rangel. É sintomático. As contas, num universo de 46 mil eleitores, eram fáceis. Adoro ouvir e ler as teorias do PSD rural, dos eleitores livres e de todas as outras contas e razões mirabolantes. Estão todas erradas. A liderança do PSD ganha-se entre Lisboa, Porto, Braga e Aveiro. Com uns pozinhos noutros distritos como Madeira, Setúbal e o resto do país. Ora, nesta concentração de votos, o PSD tem tido uma estabilidade eleitoral. Por exemplo, é curioso perceber que onde Luís Montenegro venceu há dois anos, Rangel não venceu. Terá alguma leitura no futuro? Não sei.

Hoje já não são os congressos que mudam o sentido do partido, hoje já não é o orador brilhante ou o programa entusiasmante, nem as figuras ou as campanhas. Bem, um parênteses aqui. Foi sintomático que a campanha tradicional perdeu para o profissionalismo de campanha. Digo-o com total conhecimento de causa. Paulo Rangel fez uma campanha tradicional, o discurso na concelhia, a ida às diferentes distritais, a volta normal com discurso à noite. E Rui Rio? Recusou debates, montou um call center profissional e eficaz e teve uma única mensagem para fora: Paulo Rangel não está preparado para ser primeiro-ministro. E isto, é bom ser claro, pegou. E, contra isto, Paulo Rangel não foi capaz de responder. Não mostrou o que aparentava ser: a novidade.

Depois, podemos falar de outro tema que pesa e é sempre o elefante nas salas laranjinhas: o tema das coligações e alianças. Hoje, o PSD é um partido com uma divisão cada vez mais profunda, histórica, entre uma percepção de chegar ao poder e a ideia, bem feita por Rui Rio, de proximidade ao Partido Socialista. E isto, não tenhamos dúvidas, tem historicamente o apoio de militantes do partido. E foi mais um factor a pesar.

O ponto não está em Rui Rio ser pior que António Costa. Não acho. Penso até que Rui Rio, pela sua postura e pelo seu conhecimento, será melhor primeiro-ministro que o actual secretário-geral do PS. Agora, onde está o Rui Rio picado que vimos ontem no discurso de vitória? Onde anda? Porque não aparece? É que, ontem, voltei a ver um líder galvanizado e galvanizador. Vi ânimo, vi vontade de mudar o país. É essa a vocação do PPD/PSD: mudar o país. Ter a capacidade de apresentar uma ideia de país, de reformar a sério o que o Partido Socialista mantém no ramerrame da acção governativa.

E essa vontade não pode aparecer apenas em momentos de eleições internas. Não podemos viver à espera de um Rui Rio picado. É que ser presidente do PPD/PSD não pode ser um fardo. Não pode ser uma obrigação. Mas, e agora?

Agora, o foco é 30 de Janeiro e a consequência desse dia. Se Rui Rio pode ser primeiro-ministro? Pode. Depois de ontem, ainda mais. Estas eleições internas serviram, ao contrário do que se foi ouvindo, para picar o partido, além de picar o presidente do partido.

A política vem provar que continua a ser surpreendente. É um fenómeno fascinante.

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