Opinião

O Mundial da vergonha alheia

Nuno Vinha


O Campeonato do Mundo de Futebol 2022 arranca no próximo domingo. As luzes vão ligar-se mais uma vez para a festa do futebol, com centenas de milhões de pessoas em todo o globo a acompanhar em direto na TV e nas redes sociais a cerimónia de abertura. A excelência das seleções representadas - entre as quais Portugal - e primeiro rolar da bola farão esquecer, em alguma medida, o trajeto de vergonha que trouxe a FIFA às areias do Qatar.

Não é à toa que esta edição de um dos maiores eventos desportivos do Mundo ficará conhecido como “O Mundial da Vergonha”. Desde logo, por causa do processo de escolha do Qatar. Um processo manchado por atos comprovados de corrupção dos membros do Comité Executivo da FIFA que participaram na votação decisiva, com milhões a passar de mãos qataris diretamente para membros com direito de voto, colocações de familiares de outros em empresas qataris, compra de imóveis e até benefícios em negociações sobre fornecimento de gás natural. Sim, o Qatar - um país do tamanho do que seria a sola da bota de Itália - tem uma das maiores reservas mundiais de gás, algo que nos dias de hoje ainda vale muitíssimo, apesar de toda a “hype” rumo à economia livre de emissões de CO2.

No final, o que comprou todos esses esquemas? A organização de um Mundial de futebol num país sem tradições no futebol, com temperaturas proibitivas para a sua prática em alta competição, com uma monarquia empedernida que permite ou instiga flagrantes violações dos direitos laborais e humanos da massa de migrantes que se deslocou em força para trabalhar nas obras destinadas ao evento. Milhares de trabalhadores asiáticos e africanos (95% da população do Qatar são expatriados a trabalhar no país) morreram na construção dos estádios e na reformulação dos transportes públicos do Qatar.

Esta quinta-feira, a família real do Qatar proibiu a venda de cerveja aos espectadores dos jogos do Mundial, ao arrepio do que tinha sido acordado previamente com a FIFA. Afinal de contas, um dos principais patrocinadores do evento é a Budweiser, e como se percebe de toda esta triste história, nunca foram os valores do desporto a nortear a FIFA neste processo, e sim outros e grandes valores. Se assim fosse, não haveria Qatar, como não teria havido Mundial na Rússia.

Mas até este último, e quase insignificante, agravo vem atestar o que parece ser o pensamento da família al-Thani - os homens da tribo Tamimi que cavalgaram até à liderança de um país - para com o Mundial de 2022: “Comprei-o, faço com ele o que eu quiser”.