Opinião

O lado B do futebol português é “sad”

Nuno Piteira Lopes


O desporto, tantas vezes usado para promoção política, principalmente quando as nossas selecções e os nossos atletas brilham internacionalmente, é, dentro de portas, o parente mais pobre das políticas do governo que agora cessa funções. Nos últimos anos, o Estado centrou todas as competências num único secretário de Estado que, entre inaugurações de vedações e fotos nas redes sociais para inglês ver, estrangulou, com medidas estapafúrdias – como a do cartão de adepto – clubes e competições, num dos momentos mais difíceis da história do desporto federado.

As políticas desportivas ficaram de lado, mas não esquecidas. Pois, apesar da tão prometida “alteração ao regime das sociedades desportivas” – que ainda ninguém percebeu o que realmente é –, o “fotogénico” responsável do desporto em Portugal continuou a proteger os interesses daqueles que estão perto da sua esfera política, como o “socrático” dono de uma actividade comercial que insiste em apoderar-se da história de um dos clubes mais importantes do desporto nacional.

Para o amigo foram estabelecidos contratos que permitem o usufruto das instalações do Estádio Nacional a preços que não cobrem as despesas e, mesmo quando são precisas modernizações ou alterações, como aconteceu com o relvado do campo principal, também são os portugueses que, mesmo sem saberem, se “chegam à frente”.

Apesar dos investimentos que todos suportamos, o Jamor tem sido palco de cenários completamente desoladores, como aquele a que assistimos ontem no decorrer do jogo da B-SAD contra o Futebol Clube de Arouca, onde numa partida da principal liga profissional de futebol estiveram apenas 323 espectadores. Este é um número oficial, mas que deverá incluir os elementos das duas equipas (jogadores e staff), jornalistas, bombeiros, agentes da autoridade e convidados.

É tempo de dizermos basta. Não só a um governo que apoia os seus amigos e fomenta a concorrência desleal, mas também a uma ultrapassada lei das SAD que permite que um qualquer pseudo-investidor tente apropriar-se da história de clubes centenários, como é o Belenenses, e que uma sociedade desportiva, seja ela qual for, proporcione sucessivos exemplos de como não se deve tratar uma competição que tanto Liga de Clubes e restantes SAD pretendem promover no estrangeiro.

A comparação com outras ligas, como a inglesa, não se adequa à realidade nacional, onde o movimento associativo sempre foi a base da construção dos clubes e da dimensão de cada um deles. Ao alterarmos esta realidade, deixaremos de ter um desporto do e para o povo, mas sim um futebol de investidores que usam a paixão dos adeptos para negócios paralelos ao desporto.

É necessário que se criem leis que respeitem o futebol português e que respeitem o adepto nacional. Não podem voltar a existir mais actividades comerciais a sobreporem-se à vontade das pessoas. É necessário ter coragem e, de uma vez por todas, por muito que doa a cerca de 300 pessoas, extinguir absurdos como a B-SAD.

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