Opinião

O homem de Davos

Nuno Lebreiro


Nestes estranhos dias entretanto já tornados meses e anos, desde que o mundo que nos criou se esfumou numa espécie de pantomina obsessiva e compulsiva, os versos de Gedeão parecem ganhar um novo sentido: de facto, o mundo pula e avança que nem uma bola colorida nas mãos de uma criança – apenas que não será tanto avançar, muito mais parece recuar, ou rebolar, pateticamente, ao ritmo frenético dos ímpetos, e do senso, de uma criança hiperactiva.

A título de exemplo, nos últimos três meses apenas estourou uma guerra com repercussões mundiais, há bens que ameaçam faltar, a inflação disparou e agora reaparece a histeria sanitária a propósito de uma doença conhecida, largamente inofensiva para a maior parte da população saudável, tratável, infinitamente menos contagiosa que qualquer vírus respiratório, mas que, de acordo com a indigência mental própria da propaganda mediática, parece agora encarnar a segunda peste destes tristes e ridículos dias do fim.

Entretanto, lá fora, reúnem-se as elites financeiras e económicas mundiais em Davos, na Suíça, numa conferência que, juntando burocratas, políticos, banqueiros, milionários, bilionários e demais agentes da grande finança, tecnologia, farmácia e média, atesta na perfeição a hipócrita e atávica mentalidade contemporânea: a elite, montada em avião privado e helicóptero, junta-se em estância de luxo para, de sorriso na cara, explicar que as dificuldades — inflação, pobreza, recessão — que o povoléu sente são coisas necessárias para a “transição” energética, logo, parte fundamental da salvação planetária que não se cansam de apregoar.

Aí, no novo Olimpo, discutem-se modelos teóricos, tendências e, nas palavras da sinistra figurinha que preside ao freakshow, “a capacidade [deles] para construir um novo mundo”. Personagens que quase ninguém conhece pululam por infindáveis mesas-redondas e debates, afagando os seus egos, anunciando “parcerias” e prometendo “soluções” para os grandes problemas da humanidade. Estes, claro, resumem-se praticamente às catastróficas previsões climáticas, coisas tão certeiras que se tornaram famosas nos anos 70 por anunciarem o Inverno permanente que uma nova idade do gelo traria no virar do milénio, isto logo seguido dos terrores do aquecimento global que derreteria os pólos em 2014, profecia tão ridiculamente falhada que foi agora o dito aquecimento recauchutado à sorrelfa no slogan, mais inclusivo, “alterações climáticas”, ou seja, tanto prevê aquecimento como arrefecimento, assim acautelando a fiabilidade da “ciência”, em que a única constante é a incapacidade de os modelos acertarem com o que quer que seja, desde a meteorologia do dia seguinte até à variação de um grau nos próximos 100 anos. No entanto, são esses mesmos modelos que agora, a cavalo da Greta e do ESG que alimenta o crédito, anunciam o apocalipse já para aqui a dez anos.

Naturalmente, como em tudo o resto nestes dias de indigência mental, a “ciência” sobre as supostas “alterações” está decidida por “consenso”, consenso o qual se apregoa como boa nova pelos canais de propaganda mediática, canais que, seja por incúria, preguiça ou incapacidade intelectual, parecem não conseguir alcançar as incoerências do alegado consenso, bem como inferir as consequências nas vidas das pessoas das “agendas”, “estratégias” e demais iniciativas que visam diminuir a “pegada” humana no planeta, em particular através das agora famosas emissões de carbono. Estas, claro está, dado o facto de a vida, incluindo a humana, ser feita precisamente à base de carbono, são díspares, abrangentes e significativas: desde o flato ao tubo de escape, da produção de carne até ao consumo energético, da reprodução até à providencial separação do lixo, a breve trecho, tudo merecerá reparo social e mediático, bem como o providencial visto prévio científico-político.

Assim, paradoxalmente, na conferência que junta aqueles que nas últimas décadas mais beneficiaram do livre-mercado internacional discute-se agora como acabar com esse mesmo livre-mercado, seja limitando o consumo de carne, seja rastreando os comportamentos humanos ou, em nome do bem maior da salvação planetária, reduzindo a vida das pessoas comuns, precisamente aquelas que assistem ao certame bem de fora, longe dos banquetes de caviar e das viagens em avião particular, à sobrevivência pré-definida como virtuosa, como, por exemplo, aquela à base de insectos e minhocas, sem filhos e longe de bebidas gaseificadas para diminuir a flatulência.

Na realidade, no entanto, o paradoxo não existe: à elite, historicamente, sempre interessou limitar o acesso ao mercado, mercado esse que quanto mais livre for, mais concorrência fará a essa mesma elite que pretende dominá-lo. Daí que aos bilionários não incomodem bifes do lombo a 100 euros a unidade, da mesmíssima forma como em nada os apoquentam impostos verdes altíssimos, ou taxas, exigências e regulamentos, também eles verdes, infindáveis, tudo coisas que atazanam a vida aos potenciais futuros concorrentes a intentar começar do zero, de baixo, ao mesmo tempo que apresentam pequenos custos para quem tudo tem e pode – custos que os seus advogados, a bom preço, resolvem.

A verdade inconveniente é que o livre-mercado serve é aos pobres que nele pretendem enriquecer comprando e vendendo livremente. Essa liberdade, a de ganhar a vida, é precisamente a inconveniência de quem, já montado no alto da sua abastança, prefere mercados controlados, ultra-regimentados, limitados – pelos seus interesses, naturalmente – por forma a ganhar mais esforçando-se menos. Assim vendo, Davos e o espectáculo revelam-se como aquilo que são: propaganda de quem manda e que mais ainda pretende mandar.

Ao mesmo tempo, logo ali ao lado, em Genebra, a Organização Mundial da Saúde, uma aglomeração de incompetentes e corruptos nas mãos da república comunista da China e da indústria farmacêutica, faz por estes dias também a sua reunião anual. Aí debate-se um tratado internacional que transfere a soberania nacional para a OMS no caso de aparecer uma nova pandemia. Significa isto que, ao arrepio de constituições, direitos, liberdades e garantias nacionais, passam os burocratas da OMS, bem como quem lhes paga os salários, a decidir como e quando um país deve ou não entrar em lockdown, implementar segregação sanitária com vacinação em massa ou ser forçado a usar máscara, quando não viseira e, já agora, bonés com ventoinhas capazes de afastar o ar respirado pelo indivíduo altamente suspeito que tossiu do outro lado da rua.

A tudo isto, naturalmente, a parola que lidera o Ministério da Saúde português bateu palmas. Qual era a dúvida? Não fizeram os burocratas caciqueiros do PS, bem acolitados pelo pateta saltitante frenético que pernoita em Belém, exactamente aquilo que mandaram a OMS, as farmacêuticas e os peritos a soldo que debitavam interminavelmente em directo na TV? E com resultados catastróficos, acrescente-se, não que alguém repare que Portugal apresenta hoje um salto de mais de 20% no número de mortos por todas as causas face a 2021, bem como o maior número de casos e mortos por covid do mundo, isto apesar de ser dos países mais vacinados, dos mais mascarados e dos mais destruídos. Já do outro lado da Europa, na Suécia, sem máscaras ou qualquer segregação, os casos estão reduzidos a um mínimo residual, bem como o número de mortos por todas as causas permanece dentro da média dos últimos dez anos. Nada que faça um político português questionar o quer que seja, claro, desde os avençados da situação até aos da suposta oposição. Silêncio.

Aliás, na política portuguesa não apenas não se questiona o desastre que foi a gestão da covid como não se discute a abdicação da soberania nacional que o Governo e a maioria parlamentar alegremente aprovarão na Assembleia da República. Também não se fala sobre as consequências económicas da previsível subida de juros do BCE. Menos ainda o silêncio comprometido de Lagarde, outra burocrata, quando questionada em plena TV sobre a gravidade do balanço do BCE e como pretende resolvê-lo. A instabilidade financeira, monetária e económica internacional, a enorme fragilidade de Portugal, a dívida histórica, os impostos já altíssimos, a inflação que avança a galope, os combustíveis em máximos históricos, tudo isto ameaça passar para segundo plano, bem lá atrás das imagens dos heróis de Kiev – parece que a moda do “Kyiv” não pegou – e dos 38 casos de varíola dos macacos detectados em Portugal.

De caminho – não que exista alguém que repare – no PSD há eleições. Não houve debates sequer e imagina-se que no Portugal real ninguém conheça qualquer dos dois candidatos à liderança do partido. Os programas, esses divergem entre o socialismo ambientalista de Moreira da Silva e o conservadorismo liberal pragmático de Montenegro. Naturalmente, prefiro o segundo. No entanto, não apenas prefiro o segundo como não posso deixar de lamentar o primeiro. Diz a imprensa que Moreira da Silva é “preparado”, “cosmopolita” e “competente”. Mas de que serve a suposta preparação se o resultado é uma cópia barata e traduzida para português dos delírios que, como dizia, se discutem por estes dias no Fórum Económico Mundial? Moreira da Silva pode ter saído de Portugal, viver em Paris e apresentar o CV próprio do burocrata internacional; no entanto, quando chegou a altura de se apresentar aos portugueses, não teve mais nada para oferecer que a regurgitação de um conjunto de ideias que não são suas, pelo contrário, limitam-se aos clichés que percorrem os corredores politicamente correctos da elite burocrática europeia, uma elite que envia emails endereçados a “car@s amig@s”, imagina-se que para poupar carbono no número de caracteres enquanto não ofende lunáticos da extrema-esquerda, mas que está tão longe dos problemas reais das pessoas quanto os seus modelos teóricos estão da realidade.

Do mesmo modo, transformar o PSD, ainda comatoso e em estado de choque face ao consulado desastroso de Rio, novamente num partido com um monotema que nada traz de alternativa face ao discurso da esquerda socialista, salvo a suposta competência que se procura atestar com o CV do seu presidente, não passa de repetir o mesmíssimo erro de Rio, apenas que com consequências ainda mais graves para o partido: Chega e IL estão hoje mais fortes e Moreira da Silva não tem nem o reconhecimento nem o perfil de Rio que, apesar de tudo, entrava bem em determinados sectores eleitorais.

Orgulhoso, entusiasmado, Moreira da Silva debitou convictamente na sua apresentação de candidatura sobre o Chega, claro, mas fundamentalmente sobre a necessidade de salvar o planeta, explicando como, com ele, a aplicação prática do socialismo verde que as elites financeiras e económicas internacionais subsidiam em interesse próprio será competentemente implementada em Portugal. Longe, muito longe, portanto, dos portugueses e da sua triste e apertada realidade, começando, desde logo, pelo pin “Build Back Better” que, representando o Fórum Económico Mundial, ao invés da bandeira nacional ou, vá lá, do símbolo do partido que pretende liderar, Moreira da Silva optou por colocar na lapela. Um pequeno gesto que diz tudo: Moreira da Silva, antes de ser um homem do PSD, é um homem de Davos.

Infelizmente, a Portugal será difícil escapar à loucura que tomou conta dos estultos e incompetentes líderes ocidentais. Sem independência económica e financeira, agora completamente hipotecada, levianamente, por seis anos de governação socialista, será de espinha bem vergada perante os credores internacionais que Costa e companhia, montados nos costados dos portugueses, continuarão a delapidar o país.

Do mesmo modo – e falo com o à-vontade de quem faz produção biológica, já plantou mais de 6 mil árvores e apostou no sol como fonte de energia –, é verdade que a causa ambiental é importante e que proteger e respeitar os animais e a natureza é, ou deveria ser, uma evidência para o homem civilizado. No entanto, transformar essa evidência numa justificação moral para uma prototirania tecnocrática que tudo pretende regular e legislar globalmente não deixa de ser um grave atentado à soberania nacional, uma opção política absolutamente questionável, para não dizer detestável, uma afronta à liberdade, bem como, e fundamentalmente, um crime contra a própria humanidade – em particular, como em todas as utopias socialistas, para aqueles que menos têm.

Pena é que sejam muito poucos aqueles que vislumbram o perigo por detrás dos unicórnios, arcos-íris e demais fantasias que a propaganda de serviço não se cansa de vender.

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