Opinião

O hara-kiri democrático de PCP e Bloco

Rui Rocha


A agressão à Ucrânia teve um efeito inesperado. A opinião pública europeia mobilizou-se contra a invasão, a NATO e a UE ganharam nova centralidade, a Suíça, a Suécia ou a Finlândia abandonaram a neutralidade, a Alemanha reviu os gastos em defesa e a questão da dependência energética está a ser discutida nas capitais europeias. Esta alteração do sentimento europeu só acontece porque a invasão da Ucrânia é percebida não como um evento regional, mas como um ataque que pode alargar-se às democracias liberais europeias, fundadas sobre as ideias de Estado de direito, de eleições livres e representativas, de respeito pelas liberdades individuais e de cidadania e participação cívica. Ora, é também esta a chave que permite interpretar as lamentáveis posições de PCP e Bloco de Esquerda, revelando-se ambos os partidos absolutamente incapazes de condenar – o PCP de todo e o Bloco de forma credível – a barbárie. É que, mesmo se alguns fecharam os olhos a essa evidência por mera conveniência, todos sabemos que PCP e Bloco renegam os valores fundamentais das democracias liberais. Sejamos claros. O PCP, para citar só alguns exemplos, apoiou momentos de violentíssima repressão em Berlim Oriental em 1953, em Budapeste em 1956, em Praga em 1968, em Pequim em 1989, em Caracas em 2019 ou em Minsk em 2020. E o Bloco, além de dedicar indisfarçável tolerância à ditadura cubana, apresenta reiteradamente condenados por terrorismo que não manifestam qualquer arrependimento nas suas listas de candidatos. Josep Borrell, alto representante da UE, afirmou há dias, num extraordinário discurso no Parlamento Europeu, que não se pode desviar o olhar quando um agressor atinge, sem qualquer justificação, um vizinho muito mais débil, que ninguém pode invocar nessa circunstância a obrigação de resolução pacífica dos conflitos e que não se pode imputar a mesma responsabilidade ao agressor e ao agredido. Isto, que é evidente para os que aderem aos princípios fundamentais das democracias liberais, é terreno absolutamente estranho para Bloco e PCP. É por isso, é porque não partilham dos valores basilares da nossa sociedade, que Bloco e PCP são absolutamente incapazes de estar ao nosso lado na condenação inequívoca dos crimes de guerra de Putin. Agora que não se trata já de escolher entre comunismo e capitalismo, mas entre tirania e democracia liberal, o PCP e o Bloco estão novamente do lado errado da História.