Opinião

O futuro do Ocidente joga-se na frente e na retaguarda

Carlos Reis dos Santos


Os Estados Unidos, após a ruptura psicológica estabelecida pela irrupção de Donald Trump na política americana, e mesmo após a sua derrota inequívoca nas eleições presidenciais de Novembro de 2020, encontram-se num periclitante equilíbrio perante um abismo de proporções políticas, sociais e internacionais verdadeiramente impensáveis.

A radicalização e a tribalização do discurso político e cultural nos Estados Unidos constituem hoje um progressivo factor de incapacitação do próprio sistema político americano. A verdade é que a América, o grande arsenal económico, político, cultural e militar das nossas democracias ocidentais, encontra-se hoje dilacerada e em luta consigo mesma.

As repercussões de uma inédita tentativa de golpe liderada por um presidente que, mesmo derrotado, continua a capturar o Partido Republicano e a afrontar as instituições americanas, e que nomeou três dos cinco juízes que têm emitido um conjunto de decisões judiciais que dividem profundamente os Estados Unidos, são ainda imperscrutáveis em toda a sua magnitude.

É preciso recordar que, há dois anos, não foi apenas precisa uma massiva reacção eleitoral dos americanos, que o fez perder a eleição de 2020 por mais de sete milhões de votos no país, com uma diferença inequívoca no Colégio Eleitoral, para finalmente afastar Donald Trump da Presidência e da política americana. Foi mesmo preciso que o sistema derrotasse uma tentativa de golpe materializado na tentativa de insurreição e captura física e violenta do Congresso norte-americano por milícias ao serviço do trumpismo, com comando e articulação junto dos mais altos níveis da administração.

Constitui mesmo um verdadeiro alerta e demonstração da fragilidade inerente a todas as democracias (mesmo a mais poderosa e historicamente consolidada, como a norte-americana) que um demagogo se tenha alçado à Presidência e que, apesar de ter perdido inequivocamente uma eleição, de ter sido impugnado duas vezes, de ter sido sujeito de interesse em várias investigações judiciais federais (sobre a insurreição do Capitólio, sobre o extravio de documentos confidenciais da Casa Branca e sobre tentativa de fraude eleitoral a nível federal) e várias investigações estaduais (várias fraudes financeiras, violações de regras estabelecidas pela Comissão de Valores Mobiliários e tentativa de interferência criminal nas eleições na Geórgia), seja ainda hoje o mais que provável candidato da direita americana nas próximas eleições presidenciais de 2024. Isto revela como a direita americana está capturada pelo fundamentalismo e pela demagogia e como sacrificou a própria ideia democrática ao objectivo do domínio do poder.

Nesse sentido, a actual direita fundamentalista americana é hoje um verdadeiro cavalo de Tróia na fortaleza americana e constitui objectivamente uma ameaça existencial à América democrática e liberal e, consequentemente, ao consenso ocidental estabelecido após o fim da Segunda Guerra Mundial. E tudo indica que este é um problema que veio para ficar durante os próximos anos, com ou sem Donald Trump.

Em bom rigor, este é um problema que precede em muitas décadas a ascensão de Trump. Está mesmo inscrito nas raízes da história americana que provocaram a Guerra Civil e a sua subsistência na nação americana mesmo após a derrota militar do Velho Sul.

As actuais fracturas identitárias e raciais remontam ao problema da escravatura e têm sido constantemente insufladas após a grande reforma dos direitos civis dos anos 60 e 70 do século XX. O papel da mulher na sociedade após a sua emancipação política, através da instituição do direito de voto feminino, é ainda hoje matéria de ressentimento em vários sectores da direita americana.

A crescente secularização da vida social e a emancipação de cada vez mais cidadãos das suas igrejas de origem, com reflexos evidentes na esmagadora aceitação pelas populações da realidade social diferente da comunidade LGBT, cada vez mais diversa, tem feito ricochete no Bible Belt, fazendo substituir o tradicional cristianismo conservador compassivo por um evangelismo cada vez mais militante, zelota e agressivo.

Nesse sentido, o assunto do aborto acaba por ser, ao mesmo tempo, o zénite do sucesso da reacção conservadora americana às grandes transformações políticas e sociais do século XX, mas também, paradoxalmente, o início do seu rotundo fracasso moral e cultural.

A recente decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos (o caso Dobbs vs. Jackson Women’s Health Organization) exacerbou, talvez irremediavelmente, a polarização política nos Estados Unidos e o esboroar definitivo do grande consenso nacional social americano estabelecido após a era da prosperidade e a era dos direitos civis, periclitantemente firmado nas décadas de 50, 60 e 70 do século XX, apesar de todas as tensões e linhas de fractura sempre presentes e inerentes na história americana.

A direita americana exagerou no exercício do seu poder. Abusou. E, como em todas as sociedades democráticas onde as maiorias políticas se jogam na moderação, as sociedades reagem.

Ainda o mês passado, os americanos horrorizaram-se com o caso de uma menina do Ohio, de dez anos, que foi violada e ficou grávida de um familiar. O caso da miúda tornou-se o foco do debate sobre o aborto depois de o Supremo ter declarado a inexistência de qualquer direito constitucional ao mesmo.

Essa decisão judicial desencadeou uma onda de restrições estaduais ao aborto, incluindo a entrada em vigor de uma lei no Ohio que proíbe o aborto após cerca de seis semanas de gravidez, sem excepção para violação ou incesto. A lei impediu, assim, que a menina de dez anos pudesse fazer um aborto no seu estado natal depois de os seus pais terem descoberto que estava grávida, tendo-os obrigado a tratar da criança no Indiana.

Este tipo de violências, cometidas em nome de um fundamentalismo cego e cruel, estão a provocar uma reacção sísmica no ambiente político e social norte-americano.

Apesar de tudo, e mesmo perante a crise existencial que está a viver, a democracia americana parece ser resiliente e forte e ter em si mesma as respostas aos extremismos. E começa a reagir àquilo que já se percebeu ser uma afronta às mulheres a reboque do respeito pelo princípio da iminência da vida humana.

O desvio do foco político e cultural das questões da desigualdade social e económica e da promoção da prosperidade, para a alavancagem nas questões culturais mais divisivas como o aborto, poderá até trazer ganhos ilusórios de curto prazo, canalizando o ressentimento e a angústia popular contra as “elites liberais”. Foi essa a aposta da direita americana. Mas acaba por se virar sempre contra esses jogadores.

Foi o que se viu na semana passada no Kansas, que é um dos estados mais conservadores do país. Há quase 90 anos que não elege um senador democrata e um dos estados onde a prática da religião é mais enraizada.

E foi contra esse pano de fundo que os eleitores do Kansas rejeitaram maciçamente em referendo, por 58,78% contra 41,22%, uma proposta de emenda constitucional que bania todas as possibilidades de recurso à interrupção da gravidez.

Isto é um claro sinal para uma América perigosamente dividida. E é uma mensagem poderosa para quem à direita aposta num conjunto de guerras culturais que dividem a América em duas metades irreconciliáveis, para garantir o seu ascendente.

Desde o início do mandato de Joe Biden que a direita americana o tem menosprezado e subestimado. Parte substancial desse desdém provém do idadismo e do preconceito puro contra um homem de 80 anos que é o Presidente mais velho da história dos Estados Unidos. E parte de algum rancor assenta também no facto de Joe Biden ser apenas o segundo presidente católico da história americana, representando um catolicismo popular crescentemente emancipado da hierarquia conservadora da Igreja Católica americana, onde pontificam próceres da direita política como o cardeal Burke. Nesse sentido, o catolicismo professo de Joe Biden e Nancy Pelosi é sentido como uma provocação pela direita, constituindo ambos a personificação prática da desautorização da hierarquia rigorista e farisaica por milhões de católicos e católicas americanos.

É precisamente aqui que reside toda a legitimidade e fundamentação da Presidência de Biden: o regresso à decência como um valor cívico fundamental e o regresso à normalidade como factor fundamental da vida em sociedade.

Talvez para grande desilusão da esquerda americana, a legitimidade de Biden não se pode encontrar na transformação radical do país em favor da energia verde e da justiça racial. É antes o retorno à normalidade constitucional e o regresso ao espírito de compromisso que é o único que garante um módico de progresso, gradual mas sólido, ao país.

Joe Biden tem garantido a NATO e defendido o Ocidente. E tem feito alguns progressos pragmáticos na política interna. Conseguiu um pacote de investimentos astronómicos na modernização das infra-estruturas do país e a primeira lei em décadas que limita um pouco o acesso às armas. E enquanto enfrenta a perspectiva de poder ter de vir a coexistir com uma futura Câmara dos Representantes republicana na segunda metade do seu mandato, ele tem de continuar (se a sua saúde o permitir) a garantir a normalidade institucional no país.

É mesmo fundamental para a democracia americana que Biden consiga demonstrar que o governo federal ainda pode funcionar, que pode tentar resolver problemas emergentes e que o compromisso é uma virtude, e não uma fraqueza.

Isto pode parecer-nos monótono. Mas o divertimento com o inferno de Trump é suicidário.

Ainda que Joe Biden possa não se recandidatar com a sua idade em 2024 (82 anos), poderá deixar um legado sólido ao seu sucessor, de um mandato pragmático, que poderá constituir uma plataforma para desmantelar o extremismo que agora se infiltrou na direita.

O Ocidente defende-se na linha da frente, na Ucrânia. Mas também se defende na retaguarda, na própria América.

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