Opinião

O fim da inocência da Iniciativa Liberal

Leonardo Ralha


Há cerca de seis meses pediram-me opinião sobre um dilema que gerava debate interno na Iniciativa Liberal: como se pronunciava a sigla do partido, havendo quem optasse por “ile” e quem preferisse “iéle”.

Por acreditar que nenhum homem, mulher ou organização é uma ilha, e acima de tudo por tender a ler cada letra de qualquer sigla, defendi que devia ser “iéle”. Apesar de ter ficado a pensar que, pelas suas características, a Iniciativa Liberal (debate-se amiúde se é “a” ou “o”, mas falta aqui espaço para divagações woke...) era o mais próximo da insularidade que um partido poderia querer ser - até por não esconder ao que vai, ao invés da maquilhagem, sempre esborratada, que o PCP faz dos seus propósitos.

Ao longo dos últimos anos, fruto do brilho e capacidade de liderança dos seus dirigentes e da inigualável estratégia de comunicação, a Iniciativa Liberal assumiu-se como a alternativa ao país que somos. Não só pela proposta da taxa única do IRS, que encolheria o fosso entre salário bruto e líquido nos recibos de vencimento, mas também pela intransigência na liberdade de escolha na educação, na saúde e em todos os aspectos da vida dos portugueses. Num país dependente do Estado, colonizado por alguns e limitador da pobreza de muitos, em que a maioria dos empresários e trabalhadores dependem, directa ou indirectamente, de quem controla o erário público - com o afinco de quem controlava o passado no “1984” de Orwell -, contrasta com, praticamente, tudo o que a rodeia.

Graças ao programa, à comunicação e à liderança de João Cotrim Figueiredo, foi possível ter quase 5% dos eleitores e oito deputados, com Carlos Guimarães Pinto a ser o MVP da Assembleia da República neste arranque de legislatura (e continuaria a sê-lo mesmo que não fosse colunista do NOVO). Tudo corria bem até que, subitamente no Outubro passado, o presidente anunciou que deixaria de o ser. Sem que os motivos fossem bem explicados e entendidos, e num cenário em que, no que pode ser tipificado como enviesamento da concorrência, Rui Rocha teve acesso a informação privilegiada que lhe permitiu avançar para a sucessão no mesmo dia.

Desde então, com a entrada de Carla Castro na corrida à liderança (juntou-se-lhes José Cardoso na recta final) e a multiplicação de listas para os demais órgãos, vive-se o fim da inocência da Iniciativa Liberal. Sucedem-se acusações, ao vivo e nas redes sociais, com este e aquele a ser diagnosticado com reaccionarismo ou carreirismo, tal como se ouve falar de centralismo democrático e de conservadorismo retrógrado. Neste quadro, em que se trocam anátemas de traição como se muda de camisa, é difícil antever como será a convivência no partido a partir de domingo.

E quando tudo é posto em causa, incluindo a viabilização do Governo Regional dos Açores que pôs fim a duas décadas de poder do PS, existe o risco de os eleitores não só pensarem que a Iniciativa Liberal é um partido igual aos outros como não perceberem o seu propósito. Se assim for, perderá o partido. E a democracia também.