Opinião

O combate contra as leucemias

Cátia Lino Gaspar


As leucemias agudas têm um tempo de instalação rápido, por vezes muito agressivo, na medida em que se podem manifestar sob a forma exuberante de hemorragias, anemia, infecções graves (nomeadamente da mucosa oral), febre, cansaço, dores musculares e ósseas, sem causa aparente. Mas estes sintomas podem também ser mais discretos. A leucemia mieloide aguda (LMA) tem uma incidência dependente da idade, sendo mais acentuada acima dos 60 anos de idade. Na Europa, tem vindo a aumentar: em 1976 era de cerca de 3 casos em 100 mil indivíduos e, em 2013, passou para cerca de 5. Parece existir uma correlação com o envelhecimento progressivo da população.

Já a leucemia linfoblástica aguda (LLA) tem uma incidência de cerca de 1.28 casos em 100 mil indivíduos, por ano, com variações significativas conforme o grupo etário, tendo maior representatividade com o aumento da idade.

O diagnóstico consiste na investigação citogenética (ramo da genética que estuda a estrutura e a função das células) e molecular (pesquisa de mutações) da medula óssea, através da qual se obtém informação para a classificação do tipo de leucemia e, ainda, a estratificação do risco, o que permite estabelecer as estratégias de tratamento e definir o prognóstico.

O tratamento desta doença implica a realização de quimioterapia e é efectuado em unidades diferenciadas, por médicos especialistas e em regime de internamento. A realização de alotransplante (transplante entre dois indivíduos diferentes) pode ser necessária e o aumento da frequência da utilização desta “arma” terapêutica tem contribuído para uma maior taxa de sobrevivência, nomeadamente na população com menos de 65 anos. Contudo, apesar do melhor suporte clínico e da melhoria nos tratamentos prestados, os resultados a longo prazo não são satisfatórios e apenas cerca de 17% dos doentes com LMA conseguem sobreviver 5 anos após o tratamento.

Acredito que estes resultados se atribuem à ausência de novos tratamentos dirigidos para a população mais envelhecida (idades superiores a 65 anos). No caso da LLA, os resultados são mais promissores: aos 5 anos a sobrevivência é de 41% e isto deve-se à inovação da imunoterapia nesta área específica da Hematologia.

As leucemias crónicas têm um processo de instalação mais insidioso, podendo o doente manter-se assintomático por tempo prolongado, havendo outros que são sintomáticos e que apresentam queixas relacionadas com a leucemia. Como por exemplo queixas secundárias do crescimento do baço (enfartamento pós prandial, dor abdominal mais focalizada à esquerda), presença de vários gânglios com dimensões variáveis e de localizações diferentes, perda ponderal progressiva, febre, suores ou até mesmo infecções recorrentes.

A leucemia mieloide crónica (LMC) apresenta uma incidência de 10 a 15 casos por milhão de habitantes, com uma idade média de 60-65 anos na Europa. O diagnóstico é efectuado através da avaliação das características do sangue e confirmado com a identificação de uma alteração cromossómica (presença do cromossoma Philadelphia ou um transcrito BCR/ABL tanto no sangue periférico como na medula).

O tratamento é realizado através de um fármaco oral anti-tumor que inibe uma enzima específica (inibidores da tirosina cinase). Desde o aparecimento destes medicamentos que o tratamento desta doença foi muito facilitado, permitindo aos doentes ter uma vida próxima do normal e com sobrevivências aos 5 anos de 85-95%. Trata-se, porém, de um tratamento contínuo e muito recentemente têm sido publicados resultados em doentes que suspenderam o fármaco, mas cuja prática ainda não é aplicada transversalmente no dia a dia.

A leucemia linfocítica crónica (LLC) é a leucemia mais comum do mundo ocidental, cuja incidência é de cerca de 4 casos por 100 mil indivíduos, por ano. A incidência aumenta com a idade, atingindo 30 casos por 100 mil indivíduos, por ano, em idades superiores aos 80 anos.

A idade média de diagnóstico é de 72 anos, parecendo existir uma susceptibilidade hereditária 6 a 9 vezes superior nos membros da família dos doentes com LLC. Infelizmente, na maioria dos casos é uma doença incurável, sendo que o objectivo do tratamento tem a ver com a melhoria da qualidade de vida e, por este motivo, a escolha do tratamento é determinante, variando de acordo com as características que o doente possa apresentar. É importante avaliar as comorbilidades, idade, toxicidade, assim como os efeitos secundários dos tratamentos já realizados.

Na fase inicial da doença e em doentes de baixo risco não existe indicação para tratamento, apenas para vigilância, mas em estádios mais avançados e com sintomas associados o início do tratamento é necessário. Existem vários tipos de tratamento, desde quimioterapia conjugada com imunoterapia, às “target Therapies”, que são tratamentos mais recentes e mais específicos para determinadas características moleculares e, também, mais adequadas a determinados perfis de doentes.

Como se percebe, as leucemias são um grupo heterogéneo de doenças oncológicas dos glóbulos brancos, com diferentes manifestações, diferentes critérios para diagnóstico e diferentes estratégias e perspectivas de tratamento. O futuro promete trazer-nos armas mais eficazes, mas hoje já se notam melhorias na resposta a estes cancros e é esta mensagem de esperança e de ânimo que quero deixar.

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