Opinião

O camião de Ventura, o populismo e a tremideira

João Villalobos


Estava eu a falar com um amigo que me recordava os tempos de quando o Armando Gama era o teclista dos Tantra e a falar do álbum “Holocausto” quando eis que, na Avenida D. Carlos, passa por nós um camião TIR com a voz de André Ventura, a cara do líder do Chega e a palavra “Tremer” em gordas letras ao lado. Logo comentei que, porventura, a associação provocada poderá causar efeitos subliminares contrários aos desejados, mas que sei eu. Quem produziu aquilo é que deve ser especialista. Atrás, dois ou três automóveis buzinavam timidamente e adejava uma ou outra bandeirinha. A caravana não me causou grande impressão e levou-me a pensar nas conclusões de um relatório recente, da autoria do Centre for the Future of Democracy.

Não sei se imbuídos de excessivo optimismo, os autores do documento, intitulado “The Great Reset – Public Opinion, Populism and the Pandemic”, apresentam diversos indicadores – os índices de aprovação dos líderes, a intenção de voto nos seus partidos, etc. – no sentido de concluir que a relação entre o eleitorado e os movimentos políticos populistas está a azedar nos principais países democráticos. “Parece que o populismo está em declínio”, afirmam eles. “De facto, em país após país com eleições durante a pandemia – desde os Estados Unidos à República Checa ou à Alemanha – temos visto partidos populistas e líderes que não se aguentam no poder nem conseguem aumentar a sua quota-parte do voto. Isto aumenta a perspectiva de que, em 2022, os populistas poderão enfrentar mais derrotas, com os titulares a enfrentarem difíceis campanhas de reeleição na Hungria e no Brasil, e os desafiantes que lutam para ganhar impulso em França e na Suíça.”

O relatório estabelece uma correlação entre a forma como Trump, Bolsonaro e outros líderes lidaram com a pandemia e o afastamento do eleitorado face a partidos com discursos radicais e cujas lideranças não respeitaram a crise do coronavírus. Afirmando que há provas de que a polarização política tem declinado, destaca que a experiência de enfrentar uma crise comum tem provado ser um acontecimento unificador para os cidadãos e isso torna o florescimento dos populistas mais difícil, dado que atenua os ressentimentos intergrupais.

Em média, os líderes populistas sofreram uma queda de dez pontos percentuais nas suas classificações de aprovação desde o segundo trimestre de 2020 até ao último trimestre de 2021. E o documento reforça que o apoio a mensagens tais como a de que a sociedade está dividida entre pessoas comuns e uma “elite corrupta” tem declinado em quase todos os países.

Por cá, as sondagens pouco ou quase nada se alteraram até agora, entre a campanha e os debates. E o partido que pretende fazer o sistema estremecer não parece crescer tanto como se poderia prever. Mas o camião vai continuar a andar por aí, e mesmo um resultado de dez deputados, sendo abaixo da expectativa dos seus fãs, alterará em muito a configuração do nosso parlamento. O sistema poderá não tremer ainda desta vez, mas a Assembleia da República irá certamente abanar.

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