Opinião

O bailinho da Madeira

Joana Amaral Dias


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Há uns meses, enquanto ilegalmente e sem pejo triplicava o seu salário, conspurcando ainda mais o Parlamento, Jamila Madeira afirmava que não se devia aumentar os salários dos demais portugueses porque isso alavancaria a espiral inflacionista, comprometendo o emprego. Que nome se dá a isto, qual é? Sem dúvida que o caso Jamila Madeira diz muito sobre a própria, é eloquente acerca do estado dissoluto da cúpula política, mas também fala alto sobre a moleza da nossa sociedade civil.

Desde sempre que a deputada salta de poleiro em poleiro sem outro CV além do cartão partidário. E sem que isso (como em muitos outros casos) provoque qualquer sobressalto cívico. Aliás, o despudor é tão grande que na sua própria nota biográfica na AR, sobre o seu pai ex-deputado socialista, consta: “Nunca a empurrou para a política, mas foi-lhe dando um apoio discreto. Apesar do mérito, reconhece que este funcionou como uma garantia, como se tivesse um avalista.” Caramba. Que escárnio perante a democracia.

Viajando apenas até ao passado recente, recorde-se que, em 2019, a dra. Jamila adveio secretária de Estado da Saúde. Num sector delicado, lá se enfiou mais uma girl do aparelho, com zero currículo fora da política, alguém que nunca teve um emprego, que tirou as fraldas na JS e a carta no PS para nunca mais de lá sair. Aliás, se Jamila tinha algum lastro na saúde, ele era negativo, já que na negociação da lei de bases só fez asneirada.

Agora sabemos que a parlamentar socialista renunciou ao cargo de consultora na REN (também tinha habilitações e conhecimentos para isto?!) para evitar o parecer negativo da Comissão de Transparência, que considerava ilegal a acumulação de funções. Acontece que, entretanto, gerou um grave conflito de interesses, representando empresas privadas em vez do povo português, cuspindo na mais nobre função parlamentar.

Ou seja, esta comissão, em que a avaliação é interpares, sistematicamente protege os seus e muito raramente condena os seus irmãos. Também este facto é bem conhecido - tanto como as soluções de escrutínios independentes experimentadas noutros países. Só que tudo isso é igualmente desprezado pela maioria da opinião pública e publicada. Com os resultados que se vêem. Algo semelhante ocorre com as declarações de rendimentos entregues ao Tribunal Constitucional. Parece que nunca ninguém as fiscaliza. Agora foram encontradas várias falhas nos documentos preenchidos à mão por Jamila Madeira para o Palácio Ratton, referentes aos rendimentos auferidos como deputada, secretária nacional do PS e eurodeputada. Décadas depois é que descobrem que metade das declarações não apresentam rendimentos.

Isto já para não falar de que a sua conduta é useira e vezeira entre as dezenas de deputados advogados e, contudo, a premente necessidade de dedicação exclusiva como condição sine qua non continua a ser esquecida.

Enfim, a casta cimeira usa e abusa porque nós deixamos. Habituem-se? Pelos vistos, há tempo demais que já estamos habituados.

Autoteste

Enquanto apregoam a penúria carbónica para o povo, sabe quantas toneladas de CO2 a reunião de Davos provocou este ano no respectivo aeroporto?

Resposta: 9700, equivalentes à média de 350 mil carros numa semana

Teste rápido

Graça Freitas foi condecorada com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito porque:

A) Portugal é um dois países com mais mortos por covid no mundo;

B) Portugal é um dos países com maior mortalidade excessiva da Europa;

C) continua a ocultar os contratos das vacinas;

D) levantou a magna questão do bacalhau à Brás;

E) durante a covid agiu ilegalmente ao não se reunir com o Conselho Nacional de Saúde Pública;

F) todas menos a D. Antes as compotas.

Antigénio

Na Assembleia da República, a presidente da TAP foi incapaz de responder de modo sucinto e directo a questões essenciais. Aliás, sobre várias matérias jurídicas e de gestão deixou mesmo a marca da ignorância.

Progénio

Necessária e corajosa, a acusação da Sociedade Portuguesa de Matemática ao Governo, denunciando que este atira a aprendizagem dessa ciência no secundário para “mínimos históricos inexplicáveis”.