Opinião

O amigo imaginário

João Villalobos


Quando era miúdo tinha um amigo – ou amiga – imaginário. Na verdade, ignoro qual o sexo, era indiferente. Tal como era indiferente o facto de gozarem comigo quando dialogava com essa mesma figura invisível. Tranquilizava-me. Era quem me ouvia quando mais ninguém o fazia, a pessoa a quem colocava as questões que não podia colocar a mais ninguém.

Perdi-o, a ele ou a ela, no caminho entre os cinco e os seis anos. Algures entre dois continentes. Talvez tenha ficado no mesmo contentor em que ficaram os livros do Tio Patinhas e que nunca chegou a Portugal, vindo desse sítio longínquo e quente e um bocado louco que era o Moçambique de então. Para quem leu o livro “Retornados”, de Dulce Maria Cardoso, talvez este texto faça mais sentido. Ou não.

O amigo invisível não tem geografias, tem idades. Hoje, podemos reinventá-lo. Conheço muitas envergonhadas pessoas adultas que falam “sozinhas”. Mas no século XXI já podem ir no carro e até esbracejar sem que alguém estranhe. Podem simular um auricular invisível e atravessar as avenidas discutindo consigo mesmas. Como as invejo, a elas que mantêm essa ligação com a primordial voz vinda da infância. Eu perdi-a. Para sempre.

Falar com outros não é o mesmo que falarmos connosco. Não porque exista concórdia. Mas porque há, sempre, compreensão e empatia. Amor incondicional. Temos tantas razões para nos retrairmos: a desconfiança, o medo, as separações, a memória da discussão.

Talvez fosse bom que os políticos que nos governam falassem depois de ouvir essa também sua própria voz. E menos com outras que os desviam. Talvez fosse igualmente bom reaprendermos a falar com esse outro que somos (também) nós, para parafrasear Ruben A., o escritor que deu o nome ao Partido Popular Democrático. Aposto que não sabiam desta. Talvez os escritores, os verdadeiros, nunca percam essa voz. Esse amigo. Essa ligação ao mundo dentro e fora. Essa criatividade imensa. Quem me dera.

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