Opinião

O alerta demográfico (de novo)

Adalberto Campos Fernandes


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A transição demográfica marcou as últimas décadas. O crescimento da população mundial atingiu o impressionante número de 8 mil milhões, ao mesmo tempo que se acentuou o envelhecimento populacional e se agravaram as desigualdades sociais. Apenas 11 anos depois, o mundo cresce, em população, mais de mil milhões de pessoas. Portugal acompanha a tendência europeia de uma forma mais intensa e preocupante no que diz respeito aos desequilíbrios geracionais, agravados pela persistência de elevados níveis de pobreza. As projecções demográficas reforçam a inquietação relativamente ao futuro. Num momento em que precisamos de robustecer o crescimento económico, olhamos com enorme preocupação a tendência, consistente, de uma sociedade cada vez com menos pessoas, mais vulneráveis e mais pobres. Este deveria ser, verdadeiramente, o epicentro das nossas preocupações e o eixo central das estratégias de desenvolvimento. A rapidez do envelhecimento representa um sinal de alerta relativamente ao qual não é possível ficar indiferente. A sustentabilidade do nosso futuro parece cada vez mais comprometida à medida que ganhamos lugares no topo da lista dos países mais envelhecidos do mundo.

A transição demográfica transformou, de forma disruptiva, o modelo de necessidades em saúde para o qual foram projectados os sistemas de saúde. O peso da doença aguda tem sido ultrapassado pelo aumento progressivo da doença crónica assente em múltiplas comorbilidades. As diferentes respostas dos serviços de saúde requerem uma profunda transformação, baseada numa progressiva integração funcional. A noção de cuidados tem de ser revista para um conjunto alargado de outras intervenções que estão fora do perímetro dos sistemas de saúde na sua expressão mais tradicional. As mudanças sociais em curso são muito profundas. As políticas públicas terão de encontrar o fio condutor capaz de preparar o país para uma nova estrutura demográfica, caracterizada pela longevidade e pela alteração dos equilíbrios sociais clássicos. A reconfiguração dos mecanismos de protecção na saúde, o sistema fiscal e os apoios sociais fazem parte do caderno de encargos da actual geração, tendo em vista a definição de uma trajectória de sustentabilidade e de coesão social. O problemático índice de 182 idosos por cada 100 jovens já atingido em Portugal torna necessária a mudança de rumo. A transição climática, tal como a transição energética, é hoje assumida como uma emergência na definição das prioridades políticas. Não será demais insistirmos, todos, na necessidade de a elas juntar a transição demográfica. A previsível desaceleração da economia agravará os desequilíbrios existentes, afectando, de forma severa, a defesa das pessoas, das suas condições de vida e da perseveração do seu direito à dignidade.