Opinião

O 25 de Novembro veio demasiado tarde

Rafael Pinto Borges


Neste regime, a direita nasceu e viveu derrotada. Entre os partidos que se ocuparam de representá-la, um, “social-democrata”, nasceu a enfeitar salas com grandes bustos de Marx enquanto publicava jornais de nome eloquente, como o “Pelo Socialismo”. O PSD desses anos, além de alimentar o projecto de vir a fazer-se membro da Internacional Socialista, aprovou a Constituição que altaneiramente impõe o socialismo como rumo do país. O próprio CDS, para sobreviver à repressão impiedosa da recém-nascida “democracia”, apareceu “rigorosamente ao centro”. Ganhou o direito a existir comprometendo-se com as condições ditadas pelo MFA, o que, por aquela altura, significava na prática as do Partido Comunista. Outros recusaram a tutela autoritária do PC e foram liquidados: foi o caso do Partido do Progresso ou do Partido Liberal, que recusavam a entrega das províncias do Ultramar aos agrupamentos liberticidas que, manipulados pela URSS, nos haviam feito guerra por 13 anos. O Partido da Democracia Cristã, embora fundado por Sanches Osório – recorde-se, um dos organizadores do 25 de Abril –, foi impedido de concorrer às legislativas de 1976. Assim, com os seus notáveis exilados ou presos (até Franco Nogueira passou seis meses numa cela de Caxias) e os seus partidos silenciados ou controlados, viu a direita portuguesa a consolidação de um regime feito sem ela, em cujo desenho não participou e que a teve mesmo como inimigo a erradicar.

Sem nada para lá de derrotas a recordar, é natural que a direita busque incessantemente as datas, as bandeiras e os heróis que lhe permitam fingir-se tão dona da III República quanto a esquerda. O 25 de Novembro cumpre esse papel de invenção da memória. Muito antes dele, em Setembro de 1974, falhara o único movimento que podia ter invertido a tempo o suicídio do país. A 7, dezenas, talvez centenas de milhares de portugueses brancos, negros, mestiços, indianos e chineses quase tomaram o controlo de Moçambique. Queriam apoiar Spínola, única promessa de uma democracia sem caos, sem o arrasamento da economia, sem saneamentos, sem a perseguição do pensamento e, sobretudo, sem a entrega, nem discutida nem referendada, de 15 milhões de portugueses ultramarinos às purgas de Agostinho Neto, aos campos de concentração de Samora ou às fábricas de morte de Luís Cabral. Mas nada disso aconteceu. Na Beira, Moçambique, o Exército – o nosso – cobriu-se de vergonha ao fazer fogo real sobre as manifestações dos portugueses de todas as raças que recusavam a entrega de Moçambique à Frelimo. Spínola tenta apoiar a revolta moçambicana mas, por essa altura, o poder real nas Forças Armadas era já o PCP. Pela rádio, Costa Gomes ameaça esmagar pela pólvora um levantamento que fora civil e pacífico. Semelhante erupção de coragem foi impedida pela repressão em Angola, tal como aconteceria logo a seguir, a 28, em Lisboa. Sabotada por Costa Gomes, parada pelo PC e aterrorizada pela esquerda militar, a “maioria” permaneceu “silenciosa”. Tudo terminado, Spínola abandonaria a Presidência da República, acompanhado pelos membros patriotas da Junta de Salvação Nacional: Silvério Marques, Diogo Neto e Galvão de Melo. Ficam três alinhados com o Partido Comunista. Evidentemente, elegem Costa Gomes para a chefatura do Estado. Estava aberto o caminho para a maior catástrofe da história portuguesa: na Metrópole, para o PREC; no Ultramar, para o conflito civil e o totalitarismo.

José Loureiro dos Santos, que participou no 25 de Novembro, disse certa vez que “estávamos convencidos de que a guerra civil era uma hipótese real”. Os acontecimentos desse dia foram uma derrota das forças extremistas, e ainda bem. Mas a guerra civil só foi uma “hipótese” no que restou de Portugal. Para os 15 milhões de cidadãos portugueses que viviam no Ultramar não houve o prémio de consolação de uma democracia liderada por figuras menores e uma economia de baixo crescimento, sustentada pela generosidade da Europa comunitária. A guerra veio mesmo. Nela morreram dois milhões de homens e mulheres que eram nossos compatriotas a 25 de Abril de 1974. Só entre 1977 e 1979, nas represálias lançadas contra a facção de Nito Alves e José Van-Dúnem, o MPLA terá assassinado entre 15 mil e 80 mil pessoas. Nos campos de Luís Cabral, na Guiné, acabaram fuzilados 8 mil soldados portugueses – mais do que todos os caídos em combate nas três frentes da Guerra do Ultramar. A 25 de Novembro de 1975, quando finalmente houve coragem para afrontar os destruidores de Portugal, Angola, Moçambique e a Guiné viviam já sob a bota de alguns dos regimes mais tenebrosos do século XX. Timor caminhava para o longo calvário da ocupação indonésia. No que sobrevivera de Portugal estava enterrada, com as principais empresas desmanteladas e oferecidas ao comando inepto dos sindicatos, a esperança de convergência com a Europa. Para o país e milhões de inocentes, o 25 de Novembro chegou demasiado tarde. Mais do que um triunfalismo sem razão de ser, a nossa relação com ele deve ser de alívio consternado: dando graças pelo que foi possível salvar, mas sem esquecer o que se perdeu.

PUB