Opinião

No PCP, apesar de

Armando Gonçalves Pereira


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Tenho um amigo que, tal como Ricardo Araújo Pereira, vota no PCP, “apesar de”: apesar de o PCP defender um modelo de sociedade assente num Estado totalitário, sem partidos e, consequentemente, sem parlamentarismo, e sem liberdade de iniciativa económica ou de expressão, não só política como também literária ou artística. Vota no PCP apesar de o PCP se reconhecer em alguns dos mais opressivos regimes que o planeta conheceu e conhece.

Vota no PCP porque o PCP “é importante nas fábricas”, diz ele com deliciosa ingenuidade.

Mas, ainda assim, sente-se incomodado com algumas alegações que são feitas em relação ao PCP, e tem, tal como Araújo Pereira, uma reacção de negação, uma suspensão voluntária do espírito crítico, porque há factos que são excessivamente incómodos e mais vale serem negados como conspirações do capitalismo imperialista, como ainda fazia Sartre nos anos 70 perante as óbvias aberrações do regime soviético.

Há tempos disse-lhe que havia tendências anti-semitas no PCP, o que ele, obviamente, negou. Quando lhe googlei um texto publicado no Avante! por Jorge Messias, o meu amigo, perante a evidência, limitou-se a afirmar que o autor do artigo era “parvo”. Parvus sed infestus, diria eu.

Quando o confronto com uma entrevista que Álvaro Cunhal deu à jornalista Oriana Fallaci em pleno Verão Quente de 1975, quando o PCP tinha poder efectivo, graças ao apoio dos militares, e estava Cunhal no auge da sua autoconfiança – que só viria a perder definitivamente quando caiu o Muro de Berlim, altura em que confessou a sua profunda amargura –, quando o confronto com essa entrevista, dizia eu, o meu amigo afirma, como certamente afirmaria Araújo Pereira, que é falsa.

Oriana Fallaci foi uma reputada jornalista italiana que ficou conhecida pelas suas entrevistas destemidas, primeiro a estrelas de Hollywood, nos anos 60, e depois a quase todos os líderes políticos mundiais da sua época e no auge do seu poder. Aprendeu em criança, durante a Segunda Guerra Mundial, a não ter medo dos fascistas italianos e alemães. Ficou particularmente famosa a sua entrevista ao aiatola Khomeini, logo após a Revolução Iraniana, em 1979. Forçada a usar o chador para aparecer na presença do aiatola, perguntou-lhe a certa altura por que razão as mulheres no Irão tinham ficado obrigadas a usar aquela peça de indumentária. Tirou então o chador da cabeça e atirou-o ao chão. Khomeini retirou-se, enervado, e a entrevista ficou interrompida, tendo, no entanto, sido retomada mais tarde. Foi a primeira e única entrevista cedida pelo aiatola, como se de uma vacina se tivesse tratado.

O charme e a persistência de Fallaci obrigaram os entrevistados a, por vezes, dizerem mais do que deviam. Uma vez que a maioria consistia em chefes de Estado, muitos deles autocratas com pouca experiência de serem desafiados, o estilo combativo de Fallaci parecia um golpe pela liberdade. A lista de entrevistados é impressionante. Além de Khomeini, Fallaci entrevistou Muammar Kadhafi, Henry Kissinger (enquanto secretário de Estado de Nixon), Yasser Arafat, Indira Gandhi, Deng Xiaoping, Robert Kennedy, Ariel Sharon, o Xá Reza Pahlavi, Golda Meir, Willy Brandt, Santiago Carrillo, Lech Walesa e o dalai-lama, entre outros.

Em 1975, no auge do processo revolucionário em curso em Portugal, tão perto de casa, Fallaci entrevistou duas vezes Mário Soares e uma vez Álvaro Cunhal.

Cunhal era o homem que mais contava em Portugal em 1975, que influenciava os militares no poder e parecia ter ganho as eleições apesar de as ter perdido. Talvez inebriado pelo poder conquistado depois de 14 anos na prisão e vários no exílio, Cunhal era, em 1975, pouco diplomático. Era espontâneo e sincero (e também simpático e sedutor, segundo Fallaci). Via o mundo dividido entre ditadura do proletariado e fascismo. Não concebia uma terceira via, nem sequer a da social-democracia ou a do liberalismo social. Num momento em que o eurocomunismo tentava demonstrar a sua fé na democracia parlamentar, Cunhal negava-a, professando a linha dura soviética e entrando em choque com outros líderes comunistas europeus. Continuou a defender sem pejo a intervenção da URSS em Praga, algo que foi objecto de repúdio até por parte de Ceausescu, o Presidente da Roménia caído em desgraça no Natal de 1989.

Confrontado por Fallaci com o facto de o PCP ter tido pouco mais de 10% dos votos nas eleições para a Assembleia Constituinte (contra mais de 40% do PS), Cunhal afirmou que “os comunistas não aceitam o jogo eleitoral. [...] Não me importam as eleições. [...] As eleições têm pouca ou nenhuma relação com a dinâmica revolucionária. [...] O processo eleitoral não é mais do que um complemento daquela dinâmica”. (Esta e as seguintes são traduções minhas do italiano original.)

Mais adiante, Cunhal assegurou: “Em Portugal não haverá um parlamento. [...] Haverá uma Assembleia Constituinte e basta, com uma importância limitada.”

“Se é assim”, ripostou Fallaci, “porque participaram nas eleições?”

“Talvez fosse melhor não termos participado”, retorquiu Cunhal. “Mas nem sempre se pode fazer o que se quer [...].”

O PCP sempre invocou a “democracia” com um sentido singular. Cunhal esclareceu-o: “Não entendo [a democracia] como os pluralistas a entendem. Democracia, para mim, significa liquidar o capitalismo, os monopólios. E acrescento: em Portugal, agora [1975], não há qualquer possibilidade de existir uma democracia como aquelas que existem na Europa ocidental. E com ‘agora’ quero dizer ‘nunca mais’. [...] A vossa democracia ocidental já não é suficiente. A vossa coexistência de liberdade democrática e de poder monopolístico já não interessa.”

Cunhal dissertou depois sobre o capitalismo subdesenvolvido que tinha existido em Portugal antes da revolução, “baseado numa indústria obsoleta, numa agricultura primitiva e numa miséria nunca aliviada pela tecnologia. Foi o Estado fascista que facilitou a criação de monopólios, servindo-se de um sistema repressivo violento e mantendo os trabalhadores em condições miseráveis”. Assim, para Cunhal, “aquilo que [se] vê em Portugal é apenas o início. É uma situação provisória. [...] As nacionalizações são apenas uma solução dos problemas imediatos. Era preciso nacionalizar. E vem a senhora falar-me de resultados eleitorais, de liberdades democráticas, de liberdade!”.

“Quantos presos políticos há actualmente em Portugal?”, inquiriu Fallaci.

Respondeu Cunhal: “Não sei. No entanto, não muitos, não os suficientes. Libertam-nos demasiado facilmente.”

Quase no fim, Cunhal teve um arremedo de realismo, depois de reconhecer que as nacionalizações não tinham resolvido os problemas económicos: “À amarga realidade reajo como um verdadeiro revolucionário e tenho a coragem de me opor às greves e às reivindicações excessivas, de dizer que não podemos abandonar-nos à demagogia, à corrida de quem promete mais.”

Para que não houvesse dúvidas: “Repito e concluo: Portugal não será um país com liberdade democrática e monopólios. Não será um companheiro das vossas democracias burguesas. [...] Talvez tenhamos novamente um Portugal fascista. É um risco que é necessário correr. [...] Mas, seguramente, não teremos um Portugal social-democrático.”

Após a publicação desta entrevista, os comunistas italianos, franceses e espanhóis sentiram-se melindrados. Berlinger, então secretário-geral do Partido Comunista Italiano, enviou Giancarlo Pajetta, do respectivo comité central, a Lisboa por forma que esclarecesse com Cunhal o sentido da entrevista, não fosse ter havido erros de transcrição. Pajetta voltou a Itália e disse perante o comité central que Cunhal lhe tinha confirmado todas as palavras. No entanto, o PCP, tentando minimizar o incómodo, veio oficialmente alegar que Cunhal não teria dito exactamente o que tinha ficado escrito, apesar de o próprio Cunhal nunca ter negado a veracidade da transcrição.

Depois de Novembro de 1975, o PCP rendeu-se a contragosto à democracia parlamentar. Continua na linha dura, é oficialmente saudoso do bloco soviético, elogia abertamente Lenine e, discretamente, Estaline, vota na Assembleia da República contra elogios aos lutadores pela liberdade na Europa de Leste antes da queda do Muro (como fez com Václav Havel) e exalta regimes em que nenhum dos deputados comunistas gostaria de viver, como Cuba ou a Coreia do Norte.

“No PCP, apesar disto tudo.”

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