Opinião

Nivelar por baixo II

André Pardal


No mesmo sentido do que aqui escrevi, na semana passada, relativamente ao caos na saúde, foram recentemente divulgados os traços gerais do relatório sobre o “Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal”, da Fundação José Neves.

E qual o retrato do país pós-pandemia, tendo ao seu dispor (com o esforço de todos) a geração mais qualificada de sempre?

Em traços gerais, apesar de existir uma maior empregabilidade para quem é titular de um qualquer grau de ensino superior, na última década, os salários reais dessas mesmas pessoas (licenciados, mestres e doutores) caíram uns incríveis 9%! Ao invés, o salário médio dos trabalhadores menos qualificados teve um aumento real (14% para os trabalhadores com o ensino básico e 3% para os que completaram o ensino secundário), que se deveu ao aumento do salário mínimo e à evolução da negociação colectiva.

Ora, o que estes resultados reflectem são as verdadeiras tendências dos últimos anos no nosso país, um país de salários mínimos, capturado por interesses corporativos mais ou menos manietados e com uma total ausência de estímulo ao rigor e à excelência. Num país que, desde 1995, foi governado 21 anos pelo Partido Socialista, com a “paixão da educação” de António Guterres e as “Novas Oportunidades” de José Sócrates, o nivelamento foi feito por baixo, sem qualquer critério, o que leva os melhores (os mais ambiciosos e que legitimamente aspiram a mais) a procurar outros destinos onde o mérito (e não a cunha ou a endogamia) subsista e seja o verdadeiro elevador social.

Um país assente nos baixos salários, a divergir (desde o início do século XXI) da média europeia e com o crescimento no emprego – quase exclusivamente – assente em sectores pouco ou nada produtivos, como o imobiliário, a hotelaria ou o perímetro do Estado.

Com um gritante desajustamento da formação superior dos nossos jovens, provocando em muitos casos a sobrequalificação para determinadas funções, em relação às reais necessidades do nosso tecido produtivo, apenas para alimentar clientelas já instaladas. Por outro lado, sendo uma das maiores conquistas da democracia (que tantos apregoam, mas poucos gostam de praticar), o acesso universal à educação (em particular, a superior), o maior e mais genuíno elevador social, encontra-se, actualmente, “socialisticamente” avariado, com mecanismos artificiais (e obsessivos) para tudo tornar igual, nivelando por baixo, protegendo única e exclusivamente a mediania e os interesses instalados, como bem demonstra este interessante estudo.

Nunca é demais recordar que educação e conhecimento constituem as chaves para o desenvolvimento económico de um país, para o seu sucesso e futuro. Nivelar por baixo, à boa maneira socialista, traduz-se no penoso caminho que temos percorrido nos últimos anos.

Contudo, não tem de ser assim, como o comprovam economias bem menos dependentes do Estado, em que o estímulo à excelência é fortemente incentivado e o nivelamento é feito por cima, a bem das actuais mas, principalmente, das futuras gerações.

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