Opinião

Neocolonialismo? É isto

Teresa Nogueira Pinto


Há quem justifique o tráfico de diamantes da República Centro-Africana com a debilidade das instituições (as da RCA, não as nossas). Ou lembre como atenuante a falta de condições destes militares. O PR assegura que não está em causa a excelência das Forças Armadas.

Certo. Mas de uma perspectiva internacional, como definir o processo mediante o qual estrangeiros, actuando sob uma bandeira salvífica (poderia chamar-se missão civilizacional, mas chama-se manutenção da paz), levam a cabo actividades predatórias numa terra onde a população está privada de soberania? Neocolonialismo é uma hipótese.

Há um continuum. Da colonização francesa, orientada para a extracção, à tirania de Bokassa ou à acção de políticos corruptos e rebeldes armados, a população permanece na miséria, refém de um Estado ora ausente, ora falhado. E apesar de sucessivas missões de estabilização, continua a guerra de todos contra todos.

O país expõe o lado grotesco da indústria da paz, que quase torna tentadora a sugestão de, como disse Luttwak, dar uma chance à guerra. Formam-se Estados dentro de Estados e posições de autoridade que por vezes resultam no tráfico, em extorsão e na exploração sexual dos mais frágeis entre os mais frágeis. Neste complexo sistema, assente em imperativos humanitários e de paz, uma pergunta continua sem resposta: quem guarda os guardiões? Quem os responsabiliza pelos seus crimes?

Não surpreendem, neste contexto, os crescentes sentimentos contra a MINUSCA, habilmente explorados por Moscovo e pelos seus mercenários.

Haverá sempre gente disposta a dar a vida por causas certas. Também haverá sempre gente disposta a cometer atrocidades. É preciso assegurar que estes não o fazem sob a bandeira das causas certas.

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