Opinião

Não são só as cegonhas que vêm de Paris

Leonardo Ralha


Um dos maiores países da União Europeia foi a votos e não só mais de metade do eleitorado optou pela abstenção como quase duas centenas de radicais, à esquerda e à direita, acabaram eleitos deputados. Sucedeu em França, no domingo, confirmando os sinais deixados pela inodora, insípida e incolor reeleição de Emmanuel Macron para o segundo mandato presidencial. Dito isto, qualquer incorrigível optimista pode realçar o ponto positivo de a próxima Assembleia Nacional reflectir melhor o eleitorado francês do que é hábito. Os 89 eleitos da Reunião Nacional representam muito mais os 17,3% que votaram nos candidatos do partido de Marine Le Pen na segunda volta do que os oito deputados que a então Frente Nacional obteve em 2017, com 8,8% dos votos. E o mesmo se pode dizer, em menor escala, dos 131 eleitos da coligação de esquerda NUPES, liderada pela França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, apesar de 31,6% dos votos resultarem em pouco mais de metade dos mandatos (131) obtidos pelo bloco presidencial (245), que na segunda volta logrou convencer 38,6% daqueles que foram votar.

Sobre os 89 deputados da Reunião Nacional, muito será dito e repetido. Meterão medo a muito boa gente – e a alguma má gente também –, serão apontados como símbolos de uma França que se fecha aos emigrantes (apesar de alguns terem apelidos como González, Díaz, Martínez ou Carvalho) e até equiparados a cavalos de Tróia do sistema democrático.

Mas, além de tudo o pior que possam esperar deles e das aspirações dos seus eleitores, cada um destes 89 deputados – e, sobretudo, a soma que os aproxima de uma centena entre os 577 assentos da Assembleia Nacional – triunfou sobre um sistema eleitoral alicerçado em círculos uninominais e que prevê a passagem dos mais votados a uma segunda volta se ninguém obtiver mais de metade dos votos. Algo até agora muito eficaz para sonegar representação aos correligionários das várias gerações da família Le Pen.

A “frente republicana” que pressupunha a concentração de votos nos adversários dos candidatos da extrema-direita ruiu no domingo. Basta comparar os resultados da primeira e da segunda volta em círculos ganhos pela Reunião Nacional para perceber que muitos eleitores da “direita tradicional” contribuíram para impedir que o frentismo de esquerda substituísse o tépido centrismo de Macron. Tal como não raros apoiantes do Presidente francês terão optado por votar útil em candidatos da extrema-direita em duelos com a coligação de esquerda, que as sondagens davam como podendo vencer as eleições.

Assistiu-se em Paris, de onde se dizia que as cegonhas traziam os bebés, à “normalização” da extrema-direita face a alternativas pouco luminosas. Mas também se testemunhou no domingo que a maioria de Macron conseguiu, após fazer o mesmo aos anteriores maiores partidos, secar-se a si própria como um eucalipto. Algo que se pode repetir noutros países, com partidos por ora maioritários que se vão desgastando.

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