Opinião

Muito debate, pouca política

Eduardo Baptista Correia


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O protesto e debate quanto à forma como o país é governado é, em democracia, um exercício legítimo e constitui uma opção saudavelmente disponível para todos os cidadãos.

As análises subjacentes são, regra geral, baseadas em três perspectivas distintas de qualificação e sabedoria. Podem assentar essencialmente no comportamento de pessoas, em casos e acções específicas ou na forma mais qualificada e sábia: o debate de ideias, princípios e projectos estratégica e eticamente enquadrados. Serve esta nota introdutória para a reflexão e observação da qualidade do debate oriundo da classe política governante e candidata a governante. Esperamos, no princípio defendido pelos mais eloquentes e importantes filósofos políticos da História, dos quais destaco Platão, Voltaire e Rousseau, que os governantes e legisladores sejam cidadãos extraordinários no que à sua formação e percurso de vida diz respeito. Esse princípio defende que uma sociedade só pode evoluir quando os políticos pertencerem ao grupo dos melhores, mais qualificados e sábios que a sociedade produz.

Assistimos nós, portugueses, a um contínuo desenrolar de casos em que, regra geral, os protagonistas principais intervêm na área política. Os mais recentes envolvem sempre pessoas e casos. Fernando Medina e Sérgio Figueiredo; Santos Silva e André Ventura; António Costa, Endesa, e PSD; Marcelo Rebelo de Sousa e PSD. Em nenhum destes casos existe, no centro do debate, a preocupação de enquadramento à luz de princípios gerais de ética e mérito.

O tema Sérgio Figueiredo devia ser analisado à luz da justificação para Fernando Medina ter sido contratado para comentar na TVI, bem como na capacidade que Sérgio Figueiredo terá, em termos comparativos com outros tão bem colocados, para desempenhar as funções para as quais foi contratado. Tenho muitas dúvidas sobre as suas capacidades, essencialmente por falta de informação, e consigo pensar em vários técnicos, professores e investigadores hiperbem qualificados para desempenharem essas funções – e, porventura, muito mais bem preparados que o próprio. Só essa análise de base legitimará e clarificará o debate, podendo constituir elemento de prova de nepotismo e troca de favores (estranhamos essas práticas nos governos do PS, que defende constantemente a transparência...).

Já a forma, na minha opinião malcriada, como André Ventura se comporta no discurso político é a demonstração da total falta de projecto para o desenvolvimento e inovação da nação. O seu modelo de actuação assenta na ameaça, na provocação e na maledicência – a antítese do esperado de um político sério e preparado para governar. Esse modelo convence, contudo, os mais frustrados com o desenrolar dos acontecimentos. Essa evolução eleitoral é motivo de preocupação e é também a demonstração da falta de projecto atractivo e de liderança forte no PSD.

Também a forma como o PSD lida com o debate é preocupante por não se vislumbrar um nível de postura consonante com o debate de ideias e projectos transformadores e modernizadores da economia e sociedade portuguesa. Assistimos a uma fórmula fraca de crítica de pessoas e casos sem que se vislumbre uma visão ética e estrategicamente alicerçada que fundamente em coerência todas as tomadas de posição. A fórmula do desgaste do opositor é manifestamente insuficiente e é melhor amplificada pelas forças políticas especializadas nesse modelo.

A falta de debate interno e de construção de uma alternativa credível por parte do PSD são as causas para que os “impolutos socialistas” continuem a convencer os portugueses de que, no actual panorama, são os mais bem preparados para governar.

Houston, we’ve got a problem!

Reservarei o próximo artigo para expor de uma forma sumária o que me parece imprescindível fazer de forma a modernizar e inovar na postura do PSD, reduto de esperança numa forma de estar na política que nos permita vislumbrar uma hipótese de regeneração do marasmo em que o sistema político nos colocou.

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