Opinião

Militância partidária: ainda vale a pena?

Jorge Máximo


Ao nível partidário, Agosto é o mês “silly season” e de preparação para o ano político que se aproxima. Para aproveitar os últimos dias da euforia estival e dos longos dias livres permitidos pelo calor do Verão e pelas ansiadas férias, os partidos lançam as universidades de Verão e festas de rentrée, onde a boa música e a comida bem regada são sempre óptimos pretextos para atrair boas audiências militantes e ter destaque mediático nas TV sedentas de notícias. Há até os que afirmam que “não há festa como esta!”. E depois das festas?

Depois das festas começa o ano político. Voltam os problemas do quotidiano, o confronto parlamentar e as posições dos altos órgãos partidários. É para aí que passam as atenções dos média. Privilegia-se o conjuntural, pois é preciso ser rápido a tomar posições, preferencialmente de posição contrária às do adversário político. A substância passa a circunstancial, e as convicções e certezas do passado são reenquadradas em face do novo contexto e conveniências da táctica política. Há sempre um bom argumento!

E os militantes, que papel assumem?

Desses espera-se apoio incondicional e compreensão para os motivos das falhas. Estimulam-se as redes sociais para que sejam óptimos instrumentos de ressonância dessa expressão. Episodicamente, organizam-se umas sessões de esclarecimento para sustentar o apoio e apregoar a importância da sua acção militante.

Em pleno 2022, e numa sociedade cada vez mais informada e com inúmeras opções de entretenimento e participação fora da política, será o referido modelo de funcionamento partidário suficiente para manter a militância activa e, mais importante, contribuir para reforçar a reflexão estratégica e a pluralidade democrática dentro dos partidos?

Pessoalmente, penso que não. Parece-me totalmente errado insistir em velhos métodos para alimentar novas realidades. Reconheço que muitos discordarão de mim. Muitos dirão que os partidos até têm vindo a aumentar o seu número de militantes. Mas, pergunto, com que resultados práticos?

De acordo com uma recente notícia do Observador, os maiores partidos portugueses têm ambos mais de 80 mil militantes. No entanto, nas eleições que ditaram os seus actuais líderes, apenas cerca de 20 mil militantes, ou seja, apenas 25% exerceram o seu direito de voto! É um nível de abstenção superior ao das eleições menos participadas de âmbito nacional, com a agravante de as eleições partidárias permitirem mecanismos de participação muito mais simples e facilitados (por exemplo, o voto via telemóvel).

Parece um enorme paradoxo! Ser simultaneamente militante e abstencionista. Em teoria, são duas atitudes contrárias. A militância pressupõe activismo, participação, crença, vontade de mudar e de contribuir. A abstenção expressa indiferença, desânimo, descrença na participação e reconhecimento de incapacidade para mudar o statu quo. Militância é motivação, abstenção é desmotivação. Quando cerca de 75% dos militantes nem sequer votam nas eleições mais importantes dos seus partidos, eles não estão apenas a abdicar de um direito, estão a revelar que já não sentem significado ou utilidade na sua acção militante. Se isto não é um claro sinal de crise e de desvalorização da condição militante, é porque, de facto, a condição militante já não tem grande significado. O pior é que também existem sinais de que não se pretende que tenha!

Por exemplo, alguém teve conhecimento e participou num debate dentro dos partidos sobre as razões para este facto? Se houve, eu fui dos que não tiveram conhecimento!

Nos dias de hoje, e para o statu quo dominante, até que ponto a militância activa é realmente importante? É, com certeza, muito útil em períodos de campanha eleitoral. São voluntários que carregam acrítica e entusiasticamente os candidatos escolhidos em círculo fechado. Concluídas as eleições, servem de muito pouco! Não há espaço nem tempo para que participem no debate das opções políticas. Para o statu quo, tudo está bem delegado nos candidatos eleitos. Não há grande espaço para o escrutínio, e a critica interna, mesmo quando fundamentada e construtiva, é normalmente entendida como um ataque ao partido com réplicas de incendimento nas redes sociais! Do género: quando concordem, manifestem-se com aplauso; quando discordem, mantenham reserva. Para as propostas dos adversários, é o contrário: quando concordem, mantenham reserva; quando discordem, manifestem-se com forte repúdio.

Em teoria de marketing, a expressão WIIFM, acrónimo de “what’s in it for me?” (ou, mal traduzido, “o que ganho com isso?”), é usada para descrever a posição de um consumidor perante a opção de comprar um produto. Ou seja, o consumidor tem de percepcionar valor ou utilidade num produto para que se sinta motivado a comprar. Usando esta teoria, o que ainda motiva a militância partidária?

Não sejamos ingénuos: a dimensão e o peso do Estado na economia são, claramente, um dos motivos. Muito do crescimento recente nos números de adesões de militantes têm, claramente, uma orientação de interesse pessoal, e não de serviço público ou crença ideológica. Enraizou-se o estereótipo de que a condição de militante “facilita a abertura de portas” e, perversamente para o espírito militante, muitos não hesitaram em tentar a oportunidade (alguns com êxito). Mas estas adesões oportunistas tem um perfil efémero e acrítico, pelo que pouco contribuem para o desenvolvimento do pluralismo e o progresso ideológico dos partidos.

Com o surgimento de novos partidos com mensagens mais inovadoras e diferenciadas, os partidos tradicionais perdem atractividade e capacidade de retenção militante. Se não mudarem de estilo na forma como se relacionam com os seus militantes, estou certo de que tenderão a circunscrever-se a apenas dois tipos de militantes: os militantes por sentido de obrigação, quer por terem sido eleitos ou nomeados ou por aspirarem a cargos de eleição ou nomeação; e os militantes por sentimento enraizado de pertença, cuja lealdade incondicional se justifica muito mais pela sua vivência histórica no partido do que pela defesa das opções políticas do presente. Infelizmente, não chegam para aspirarmos a melhor democracia dentro dos partidos nem à reflexão estratégica que nos conduza a melhores opções políticas para o futuro.

A militância partidária teve um papel fundamental na construção do Portugal pós-25 de Abril. A nossa democracia tinha bases muito frágeis e a militância partidária foi essencial para estimular o envolvimento, genuíno e desinteressado, da participação dos cidadãos na consolidação do regime. Mas a realidade de outrora é muito diferente da actual. Hoje há novos desafios e novas ameaças, mas também há novos meios e novas capacidades.

Há que caminhar para maior TRANSPARÊNCIA e ABERTURA na forma como se governam as estruturas partidárias. É necessário um NOVO ESTILO DE GOVERNAÇÃO que mobilize e valorize a participação militante na reflexão estratégica e no escrutínio positivo dos eleitos do próprio partido. Que priorize as competências e permita maior pluralismo e alternativas na escolha dos candidatos a eleições. Um modelo que faça VOLTAR a ACREDITAR que ainda vale a pena ser militante. Um modelo de militância smart.

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