Opinião

Meu querido mês de Junho

Teresa Rebelo Pinto


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Quase nem parece que estamos em Junho. As ruas de Lisboa não estão cheias de música nem de pessoas, não sinto o habitual ritmo de festa nem aquele cheiro a sardinha assada que custa a sair da roupa e do cabelo. Faz-nos falta o Santo António e os seus casamentos, o entusiasmo das marchas, os padrinhos e madrinhas, as enchentes e os abraços repetidos ao longo da calçada e carris dos eléctricos.

Lembro-me de levar uns amigos estrangeiros a passear por Lisboa numa noite de Santos Populares. Em Junho, tornávamo-nos praticamente família, todos ligados a festejar cada um dos santos e os cumprimentos calorosos sucediam-se ao longo da noite. Nessa altura, o único risco de contágio era de entusiasmo e animação. O espanto dos meus amigos com tanta proximidade, energia e afectos foi de tal modo, que me perguntaram se afinal eu era famosa enão lhes tinha dito nada. Afinal, era apenas uma noite normal de Junho.

Em altura de pandemia, os festejos sabem sempre a pouco. A jogar pelo seguro, continuamos a resguardar-nos evitando ajuntamentos (e bem!). Mas parece que não chega, dá vontade de amuar e esquecer a chegada do Verão, já que é mais difícil esquecer a fase que atravessamos mundialmente.

Enquanto nos contemos, ansiamos pela próxima festa, o próximo abraço, pela altura em que já se pode dançar na rua ao ritmo dos grelhadores a crepitar. E oque é que isto tem a ver com saúde mental? Tudo. A saúde mental é também a saúde dos afectos. A forma como nos podemos expressar, a partilha de vivências e a troca de afectos estão na base da estabilidade emocional. As tradições evocam todos estes momentos e (também) por isso são tão importantes. E é normal ter saudades dessa liberdade.

Claro que nos podemos adaptar – este deve ser um dos conceitos mais utilizados no último ano – mas não é bem a mesma coisa. Os vídeo-afectos não substituem um abraço de verdade. As festas ilegais, escondidas em apartamentos ou em bares à porta fechada, com gente a mais e máscaras amenos, sabem a batota e incomodam os vizinhos. Não é por acaso que o toque é uma das coisas que os bebés mais precisam para se desenvolverem bem. A falta de toque e contacto com o outro aumenta os níveis de stress, os sentimentos de solidão, medo e insegurança e até reduz a imunidade.

Quer isto dizer que devíamos retomar os arraiais? Defender com unhas e dentes a importância de nos voltarmos a encontrar como o mês de Junho tanto convida? Certamente que não. Há que ter bom senso e manter as precauções que a pandemia exige.

Parece que é pecado algo tão natural como celebrar a vida em conjunto. E em certa medida, quando não há limites e entramos no domínio do vale tudo, até é. É preciso retomar aos poucos, com prudência, o calor que caracteriza os portugueses. Abraços, beijinhos, apertos de mão: são todos bem-vindos e necessários para nos mantermos sãos e ligados, mas por favor façam escolhas acertadas.

Vale a pena lembrar que saúde e bom senso também andam de mãos dadas. Por isso, se nos portarmos bem, daqui a nada já cá temos o nosso querido mês de Junho como o conhecemos.