Opinião

Medina no bolso

Octávio Lousada Oliveira


É justo que comece assim: com o reconhecimento de que, há seis meses, quando saímos pela primeira vez para os escaparates, publicámos uma sondagem, com honras de primeira página, que, sabe-se agora, estava a anos-luz daquilo que a crueza das urnas veio a revelar.

O estudo de opinião sobre a Câmara Municipal de Lisboa, encomendado à Intercampus, cumpriu escrupulosamente todos os preceitos legais e foi realizado de forma inatacável do ponto de vista metodológico. Concedo que a fotografia daquele momento – o que é uma sondagem senão a captura de um determinado instante? – podia ter sido um duríssimo golpe nas aspirações de Carlos Moedas.

Na capa, cuja paternidade assumirei sempre, por dever e por convicção, escrevemos “Moedas no bolso”, na linha das parangonas irreverentes e provocadoras por que temos pautado o nosso jornal. Aparentemente, chocámos muitos sociais-democratas e a meia dúzia de democratas-cristãos que restam na capital. Talvez preferissem que procurássemos eufemismos para a tragédia que parecia escrita nas estrelas.

No inquérito, Fernando Medina recolhia 46,6% das intenções de voto (à beira da maioria absoluta, portanto) e Carlos Moedas não ultrapassava os 25,7% (aquém do que Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho, somadas, tinham conseguido em 2017). Fomos trucidados. Que raio de periódico era este que, afirmando-se de centro-direita, se estreava em banca com uma sondagem abrasiva para a grande esperança do centro-direita nas autárquicas? A autofagia clássica desse espaço político, chegámos a ouvir.

Passou meio ano. A poeira assentou e a hegemonia do PS esboroou-se. Medina provou a incapacidade política a que já aludi noutros artigos – sem sair do sofá, Pedro Nuno Santos foi um dos vencedores da noite – e Moedas, mesmo sem ser empolgante, provou que PSD e CDS não estão condenados à inépcia dos seus dois líderes e ao triste fado de perder por poucochinho.

Ainda que com gafes e algum desconhecimento da cidade à mistura, embora num estilo cordato e nos antípodas dos autarcas brutos e grosseiros, mesmo sem hostilizar as “elites” intelectuais e artísticas que vivem alcandoradas nos socialistas há uma série de anos, prescindindo até dos ataques de carácter aos adversários (e seria fácil ter caído nessa tentação quando Medina, inspirado na escola Sócrates, o fez sem qualquer prurido), Moedas triunfou. Dobrou a Lisboa dos pequenos e grandes interesses, fez colapsar os fundamentos de uma capital domesticada – das chefias de topo aos porteiros, das empresas municipais às colectividades “independentes”.

Com a elegância que lhe reconheço, Moedas sublinhou que temos, hoje, um problema com as sondagens (e talvez tenhamos mesmo). Sem amarguras que corroem o espírito, sem excessos verbais, sem processos de intenção, sem lhes chamar “vigarices”, como fez Rui Rio – o grande beneficiário desta festa domingueira da democracia. Sem ameaças veladas de vendettas contra as empresas de sondagens. Sem sugestões de cruzadas contra os órgãos de comunicação social que as contratam e que as divulgam.

Sendo certo que os resultados ainda não estão todos apurados, afirmo, sem assomos de fúria ou exercícios de autoflagelação, que a elevação prevaleceu sobre a boçalidade. E que a crença num projecto e num caminho superou o desânimo e a desmobilização a que a força dos números poderia conduzir. Recuso fingir que acreditava neste desfecho. Não acreditava. Em certa medida, meto a viola no saco. Moedas, esse, pôs Medina no bolso.

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