Opinião

Lutar pela Democracia

Fernando Figueiredo


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A nossa democracia defronta-se com graves défices de representação, estando em causa a sua sustentabilidade.

Certamente que conhecem o cenário em que a população rejubila de alegria com a ideia de mudança em contraste com o outro em que o mesmo orador pergunta quem está então disponível para liderar essa mudança. A resposta é invariavelmente a mesma de há uns anos a esta parte e de eleição para eleição piora, muito por força do descrédito que os políticos ditos profissionais a têm conduzido e aproxima-se do valor zero.

Nas redes sociais e no conforto do sofá a indignação é geral e a predisposição do “like” na mudança é avassalador, mas quando passamos para a realidade o desencanto e o desinteresse na participação política é de sentido contrário.

A elaboração das listas de candidaturas autárquicas, seja para Assembleias de Freguesia ou Municipais e executivos camarários é actualmente, salvo raras e positivas excepções, um processo penoso e desgastante. O cidadão não está receptivo a participar nas listas, nem disponível para se expor publicamente pois receia pressões e penalizações de vária ordem. E, na maioria das ocasiões, nem sequer quer perder tempo a ouvir das razões que motivam a sua possível escolha. O cenário é pior ainda no campo feminino, por força da paridade, obrigando a encontrar na racionalidade e maior pragmatismo das mulheres motivação suficiente para integrarem a lista. Na grande maioria das mulheres abordadas a resposta é um redondo não. E quando as e os melhores dizem não, a qualidade inevitavelmente decrescerá.

Os partidos históricos e já instalados na sociedade portuguesa não passam por essa dificuldade porquanto a maior militância, a rede de compromissos instalados e o grau de promessas fruto da gestão do poder, não têm problema em encontrar participantes activos para as suas listas e até, por força dessa oferta, uma maior selecção nos seus candidatos.

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Já os novos partidos, como a Iniciativa Liberal (IL), com uma base territorial ainda em desenvolvimento e com uma menor penetração política, têm a sua vida dificultada na elaboração das listas a nível das freguesias, rurais em especial. Nesse âmbito, a participação dos cidadãos na vida política local e o contributo dos novos partidos nessa missão de promover o contacto entre os cidadãos e os seus representantes políticos, através de mecanismos que permitam um envolvimento mais profundo na tomada de decisões que afectam as suas vidas, será um caso de estudo nestas próximas autárquicas.

Numa época marcada pelo distanciamento dos cidadãos nas actividades de participação política, sendo a abstenção eleitoral a mais significativa, o desafio para a IL, e também para outros pequenos ou emergentes partidos, passa pela criação de interacções permanentes entre o candidato e os cidadãos, através da introdução de práticas participativas, captando-lhe a atenção e ganhando a sua confiança. Novas formas de comunicação pública, com as redes sociais a assumir um papel preponderante nesse sentido, sem soluções rígidas, mas adaptadas às idiossincrasias de cada lugar, com “politicas fora da caixa” e uma campanha muito humanizada são os ingredientes necessários para nesta nova realidade, avessa à participação política. Urge quebrar as formas tradicionais de interacção e de comunicação entre o poder público e a sociedade e originar novos espaços de debate, com uma dimensão e importância nunca antes verificadas, por forma a conseguir motivar e recrutar os mais aptos para as listas autárquicas, os cidadãos que possam acrescentar valor à política local sem dela nada esperarem.

Este é o principal desafio da IL nestas autárquicas: o de conseguir criar uma base estrutural segura, de valor alargado e de quadros e cidadãos interessados em fazer do seu espaço local um lugar de maior liberdade de escolha e de menor peso do Estado nas suas vidas. É uma tarefa árdua, onde a ingratidão está permanente presente, onde se ouve o que não se quer, onde se obtém o que não se espera, onde se é julgado em processos sumários na praça pública sem conhecimento de causa, onde se é culpado pelos erros políticos dos partidos tradicionais instalados no poder, onde se recolhe muita indignação e pouca ambição por um País mais liberal. A IL irá trabalhar para surpreender, mas não é um desafio fácil quando o cidadão se alheia desta vontade de fazer a mudança.

A IL criou uma estrutura que se modernizou para responder em apoio dos núcleos locais, com plataformas informáticas para mitigar a burocracia própria de um desajustado processo eleitoral. Localmente organizou-se por forma a apoiar o candidato local na campanha, na recolha de informação para o programa eleitoral e no apoio aos candidatos aproximando o partido do cidadão. E tudo isto, sem as máquinas instaladas ou contratadas e os orçamentos despesistas suportados exclusivamente pela subvenção estatal. A IL tentará nas próximas eleições fazer a diferença e iniciar a mudança por um País mais desenvolvido e inclusivo.

O voto é sempre apenas o primeiro passo da actuação de um cidadão envolvido na urbe, pois existem diferentes maneiras de participar ativamente da política. Além das formas tradicionais de participação na política partidária (como candidatar-se a um cargo eletivo, filiar-se ou apoiar um partido político), é possível participar de um conjunto de espaços de actividade social garantidos por lei, ou até mesmo criar novas formas e estratégias para influenciar as políticas e decisões públicas. De todas estas formas o cidadão até do direito ao exercício de voto tende a descartar.

Dia 27 de Setembro, os mesmos que agora dizem não, serão os primeiros a queixar-se disso!

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