Opinião

Lisboa para além da Almirante de Reis e da Feira Popular

Jorge Máximo


Já passaram mais de 20 anos, mas aquelas palavras ainda ecoam na minha memória pois tiveram uma enorme influência na forma como hoje relativizo os anúncios e as prioridades de políticas públicas. Na altura, era um jovem recém-eleito para a assembleia de uma das maiores freguesias da cidade e conversava informalmente com o eleito mais velho daquele plenário. Depois de ouvir afirmar as minhas ambições e reivindicações para a freguesia, com a natural soberba e ingenuidade da juventude, ele sorriu para mim e, com a enorme maturidade e autoridade de uma longa experiência de vida, afirmou de jeito conformado “caro Jorge, o meu maior sonho de vida era apenas ter numa casa com casa de banho ainda antes de morrer!”. Fiquei estupefacto, e sem palavras! Parecia uma coisa tão simples e que pensava tão garantida a todos! Mas não, afinal havia uma Lisboa cuja realidade era bem diferente daquela que eu conhecia. Sim, este relato foi em Lisboa e até já foi neste século.

Lisboa é uma cidade deslumbrante, cosmopolita e única. O Tejo e a luz são a sua alma, e a sua história o nosso ADN. Mas Lisboa não é toda igual. Lisboa não é apenas aquela capital vibrante que atrai turistas de todo o mundo, a Lisboa dos grandes eventos, dos grandes monumentos, das grandes tendências. A Lisboa do Centro histórico, das Avenidas Novas ou do Parque das Nações. A Lisboa que domina as notícias que enchem as redes sociais. Há também uma outra Lisboa. Uma Lisboa envergonhada de que pouco se fala. Uma Lisboa tão grande ou até maior do que a primeira.

É claro que Lisboa está hoje muito melhor do que há vinte anos atrás. Não regredimos, e fizemos muitos investimentos na melhoria da cidade. Mas continuamos com ritmos e prioridades muito diferentes. Não somos uma cidade equilibrada, há múltiplas assimetrias e problemas de equidade e de acesso que ainda permanecem. Há também novos problemas que tardam a ter respostas globais e integradas. Lisboa necessita reforçar e discutir uma visão estratégica integradora de todo o seu território e perfil demográfico. De assumir com frontalidade e transparência o debate sobre as grandes opções de transformação futura da cidade, nomeadamente aquelas de conflituam interesses económicos com maior sustentabilidade ambiental ou vivência comunitária. Lisboa é muito mais do que a já cansativas e, normalmente demagógicas, discussões sobre a ciclovia da Almirante de Reis ou da localização da Feira Popular.

Lisboa tem ainda uma visível dispersão territorial ao nível da oferta e qualidade do espaço público, do ambiente urbano e dos equipamentos sociais e culturais. Há ainda bairros e zonas residenciais que não merecem o rótulo de capital europeia. Sim, há ainda uma Lisboa de ruas sujas e com deficiências na recolha de lixo, com edifícios e passeios degradados e com equipamentos fechados, com espaços verdes convertidos em terrenos baldios e onde se fizeram grandes investimentos públicos de efeito efémero por mera falta de manutenção. Há uma Lisboa onde faltam cumprir regras urbanísticas simples, e onde uma miríade de cabos suspensos e outras agressões visuais são parte integrantes da paisagem. Lisboa é também uma das capitais mais envelhecidas da Europa. Um facto que não deve ser encarado apenas como um problema ou fatalismo. É, em primeiro lugar, uma característica intrínseca da sua população residente o que reforça a importância de boas respostas de proximidade adaptadas ao respetivo contexto socioeconómico. Neste quadro, combater o isolamento e a solidão poderão ser socialmente mais importantes do que grandes investimentos em inovação e em obras públicas. Em paralelo, as políticas que incentivem a atração e retenção de jovens devem ser concebidas numa dimensão alargada e integradora da oferta disponível que seja articulada com o processo natural de renovação geracional dos seus territórios. Lisboa é uma cidade sistematicamente condicionada por grandes promessas que não arrancam e que fazem ficar parada no tempo. Da nova ponte ao novo hospital, do novo aeroporto à nova rede ferroviária, do Vale de Santo António ao Alto da Ajuda, vários são os grandes projetos pelos quais Lisboa anseia clarificação há largos anos. Compromissos públicos que continuam envoltos em indecisões e incertezas sobre os termos e condições para a sua construção, mas cujo impasse continua a impedir a tomada de decisões que permitem o normal desenvolvimento e regeneração nos territórios de intervenção desses projetos.

Lisboa continua ainda virada de costas para o rio Tejo. É verdade que se investiu muita na melhoria da frente ribeirinha, mas há ainda uma visão e estratégia de capitalidade atlântica que, embora com mais de 20 anos, tarda em arrancar e a recuperar a vocação marítima da nossa cidade. Hoje há menos lisboetas a fruir e a aceder ao rio do que havia há um século atrás. Há barreias a derrubar, há anátemas a desmitificar, há experiências a permitir e há gerações a educar. Lisboa tem clamado convictamente uma ambição de sustentabilidade e transição climática, mas continua com dificuldades em assumir, com coragem e transparência, algumas decisões difíceis. Decisões que, embora limitem práticas e interesses económicos também importantes para a cidade, são necessárias para reduzir a pegada ambiental de alguns grandes utilizadores de recursos naturais, como são o turismo de cruzeiros, ou da edificação intensiva nas zonas mais centrais da cidade. Na política ambiental não pode haver tibiezas e incongruências. Sinais políticos que façam desconfiar sobre a equidade dos critérios de distribuição de responsabilidades, são fatores que desmotivam a atrasam a mudança geral de comportamentos. Lisboa necessita de recuperar a vivência comunitária dos seus bairros, de criar estratégias que permitam o rejuvenescimento e a modernização do seu tecido associativo de base local, e que estimulem a criação de bairros sustentáveis com capacidade de cooperação e cogeração comunitária aos níveis energético, hídrico e alimentar. De continuar a acelerar na capacidade de gestão integrada, colaborante e eficiente da sua rede alargada de respostas sociais, reforçando a utilidade e eficácia da oferta do 3º setor, e diminuindo o desperdício e a redundância na utilização de recursos públicos e privados. Deve também convergir com os seus territórios vizinhos no investimento e na experienciação de respostas conjuntas para problemas de base comum.

Lisboa ainda não é uma verdadeira cidade inteligente. É uma cidade que necessita de continuar a investir no reforço da transparência e na publicidade dos fundamentos na tomada de decisão pública. De assumir compromissos estratégicos e operacionais cuja execução seja assente em dados abertos que permitam a sua monitorização, escrutínio e a correção tempestiva de ações desviantes. Lisboa deve ainda alargar e reforçar o valor percecionado dos mecanismos de incentivo à cidadania e à participação dos cidadãos, e de reforçar a capacidade de auscultação e acompanhamento continuo dos sentimentos e do funcionamento da cidade enquanto ecossistema vivo. Lisboa deve melhorar os seus níveis de serviços na relação com o cidadão, cujos tempos de resposta continuam a comparar muito mal no contexto nacional e a desincentivar a iniciativa privada.

Lisboa tem o dever que reforçar os níveis de exigência sobre o próprio funcionamento e organização dos seus serviços municipais. De exigir maior agilidade, tempestividade e eficiência com menor consumo de despesas correntes. De reduzir a desmesurada e até anacrónica dimensão e omni presença da sua estrutura municipal, e implementar um modelo organizativo mais horizontal, integrado e centrado nos cidadãos. Um modelo que facilite e simplifique a vida quotidiana, mas também seja capaz de antecipar respostas rápidas e eficazes às situações de maior fragilidade. Lisboa necessita de assumir maior pragmatismo no debate político partidário e privilegiar compromissos plurais de base alargada focados na construção faseada das etapas essenciais à concretização da sua visão para o futuro, em detrimento das habituais quezílias e confrontos partidários de natureza predominantemente tática e ideológica que, ao nível autárquico, são normalmente corporativos, anacrónicos, e procrastinadores de respostas aos interesses maiores da globalidade dos cidadãos.

Lisboa é uma cidade única e global de que a maioria dos lisboetas fala com orgulho. Mas Lisboa ainda não é uma cidade completa. Como os melhores atletas, Lisboa tem de continuar a reforçar os seus níveis de autoexigência e ambicionar alcançar objetivos maiores. Mais do que galardões internacionais de efeito casual, Lisboa tem de ter a capacidade de se autoavaliar e de assumir de forma clara aquilo que quer ser e, também, aquilo que não quer ser. Contem comigo para participar nesse debate. Com convicção e motivação, por uma Lisboa Smart.

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