Opinião

Lições das eleições nos Estados Unidos e no Brasil

André Pardal


Nas últimas semanas decorreram importantes actos eleitorais em dois países fundamentais para o equilíbrio mundial, membros do G20 e que, em conjunto, são mais populosos do que toda a União Europeia.

A superpotência americana, com as suas sólidas instituições democráticas, onde os olhos de todo o mundo se concentram, por diversos motivos, enfrentou eleições intercalares, com a renovação de um terço do seu Senado e da totalidade da Câmara dos Representantes, e o nosso país-irmão, com todos os seus gritantes contrastes, realizou mais umas eleições presidenciais.

Contudo, e ao contrário de muitas das catastrofistas previsões, as candidaturas populistas foram largamente derrotadas.

Para todos os actores políticos, mas particularmente os do centro-direita e da direita democrática”, também nacional, os resultados das eleições americanas e brasileiras deveriam servir de lição.

No Brasil, o esquerdista Lula, anteriormente “paz e amor” e já condenado por corrupção, conseguiu agregar à sua volta uma frente eleitoral que vai da esquerda radical ao centro-direita, capitalizando a aversão da maioria do eleitorado (moderado) ao conjunto errático de disparates que o ainda Presidente Bolsonaro foi dizendo e fazendo nos últimos quatro anos.

Nos Estados Unidos, a influência de Trump, inclusivamente no Partido Republicano, diminuiu a olhos vistos e, ao contrário do habitual, não houve uma ampla mudança no equilíbrio bipartidário, demonstrando que, numa das mais consolidadas democracias do mundo, o centro e a moderação representam não só a maioria do eleitorado como a antítese do grotesco e do boçal.

A grande diferença entre os dois países está, todavia, na capacidade que, nos EUA, os próprios membros do partido de Trump (que nunca foi consensual no seu seio) revelam em se distanciar do ex-Presidente.

Estes resultados demonstram – no continente americano como cá – que a maioria do eleitorado é, efectivamente, moderada, não obstante, em determinados momentos, por desgaste do regime democrático, afastamento entre eleitos e eleitores e, sobretudo, em momentos de crise económica e social, poder ser seduzida por discursos mais ou menos populistas.

Aqueles que, por convicção ou mera táctica eleitoral, entendem que partidos democráticos, estruturados e moderados deverão incluir populistas e radicais em frentes anti-qualquer coisa” acabam por condenar o seu próprio campo político, a médio prazo, a pesadas derrotas eleitorais.

Desde logo, pela natural radicalização de algumas medidas, que conduzem ao desvirtuar dos princípios basilares do partido moderado, possibilitando (é o que demonstram variados exemplos por esse mundo fora) a ascensão do partido populista, invertendo, a curto prazo, a sua posição na equação eleitoral e estabelecendo, desde esse momento, as regras do jogo.

E, por outro lado, pelo instinto humano da tese-antítese, o eleitorado até pode, no limite e em “desespero de causa”, votar nas franjas do espectro partidário num determinado momento. Contudo, a prática governativa destas tende a ser tão má que, na eleição seguinte, a penalização é bastante forte, tornando-se – regra geral – estrutural.