Opinião

Liberdade não é anarquia

Rubina Berardo


As imagens do ataque negacionista ao Presidente da Assembleia da República são deveras chocantes. Sempre que titulares de cargos públicos sofrem intromissões tão violentas na sua vida pessoal e familiar - algo que infelizmente não acontece pela primeira vez em Portugal - apercebemo-nos da fragilidade da democracia.

Neste caso em concreto os perpetradores foram os anti-vacinas ou negacionistas. Acham-se dotados de uma inteligência superior porque negam aquilo que o resto da sociedade aceita: a racionalidade como base da ciência e das decisões públicas. Não só se baseiam num mero mimetismo dos movimentos negacionistas Covid-19 que acontece noutros países, como se esquecem que em nada divergem de movimentos semelhantes de séculos passados.

Os historiadores Marie Clark Nelson e John Rogers descrevem num artigo científico a última epidemia de varíola em Estocolmo ocorrida em 1873-4. Perante o avanço da doença na Europa, as autoridades suecas estavam particularmente preocupadas com a resistência social ao programa de vacinação, seja por motivos religiosos, seja pela incerteza sentida por partes da população, seja ainda pela distribuição de (des)informação impressa que defendia o direito dos indivíduos a fazer as suas próprias decisões ao invés de serem obrigados a tal pela sociedade.

Realmente, ser negacionista no século XIX ou no século XIX não diverge assim muito, a não ser a constatação dos avanços científicos no dia a dia da Humanidade. Outro fator é igual entre os séculos: a liberdade não é nem pode ser a anarquia que os negacionistas perpetuam nas suas reivindicações e atitudes anti-democráticas.

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