Opinião

Isolados e sós

Ana Luísa Conduto


Desde 2011 que a GNR realiza uma operação designada por Censos Sénior, com o propósito não só de fazer uma sinalização geográfica das situações de isolamento em que idosos se encontrem, mas também para garantir um apoio mais próximo às populações e para sensibilizar e alertar para a adopção de comportamentos de segurança que permitam reduzir o risco de se tornarem vítimas de crime.

No domingo passado, no âmbito da referida operação, a GNR alertou para a circunstância de mais de 44 mil idosos se encontrarem isolados, sós ou em situação de vulnerabilidade.

Esta realidade não pode deixar-nos indiferentes.

O abandono social ou familiar dos idosos é uma circunstância que, enquanto comunidade, deve merecer-nos a maior das preocupações.

E se é verdade que a GNR tem desenvolvido um relevante trabalho de sinalização e de acompanhamento de situações de isolamento dos nossos idosos, a verdade é que um fenómeno desta natureza exige a intervenção coordenada de várias entidades.

Para que se garantam as condições mínimas de vida e, em algumas situações, até mesmo de sobrevivência, o Estado não pode demitir-se de intervir nesta matéria. Antes é função do Estado garantir, através de políticas públicas nacionais, mas também locais, que as condições de vida com qualidade dos mais velhos são dignamente concretizadas.

Os profissionais de serviço social dedicam-se, embora com poucos recursos e muitas vezes esquecidos, nomeadamente pelo Estado, a garantir a mínima qualidade de vida àqueles que parecem esquecidos por todos.

Isolados, sem condições habitacionais, alimentares ou de higiene, com dificuldade de acesso a cuidados de saúde e a terem de seleccionar que medicamentos adquirem, devido às baixas reformas. Acrescem muitas vezes situações de extrema vulnerabilidade a serem vítimas de crime, seja praticado por pessoas próximas, seja por desconhecidos.

Não planeamos o envelhecimento da população. Continuamos a não valorizar as políticas de envelhecimento e, quando o fazemos, desconsideramos demasiadas vezes estratégias de promoção de envelhecimento saudável em que o conceito de qualidade de vida deve contemplar o bem-estar físico e o bem-estar psicológico.

Políticas sérias e consistentes nesta matéria exigem um equilíbrio entre redes de apoio multidisciplinares, com a necessária presença de psicólog@s, e estratégias de promoção de autonomia e autocuidado, em que se deve trabalhar numa articulação entre a família e a comunidade, exigindo as políticas proximidade e assumindo as políticas nacionais a função de orientação e capacitação das políticas locais a implementar junto da comunidade.

Não basta a boa vontade e criatividade na gestão de recursos das juntas de freguesia ou das IPSS. É necessária uma articulação e afectação financeira dos municípios e do Governo, fazendo face às necessidades particulares de cada região.

Ninguém quer envelhecer sozinho, isolado e vulnerável. Ninguém quer viver num país que abandona os mais velhos, isto é, envelhecer na certeza de que somos descartáveis!

O envelhecimento digno tem de ser assegurado em Portugal e garantido como um direito fundamental dos cidadãos!

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