Opinião

Isabel II e os “monárquicos” nacionais

André Pardal


Após um longo e marcante reinado – um dos mais longos da história mundial, apenas suplantado pelo de Luís XIV, de França – de mais de 70 anos, a Rainha Isabel II faleceu, a 8 de Setembro.

Consensualmente uma das figuras mais marcantes dos séculos XX e XXI, que atravessou a História e a memória da grande maioria dos hoje vivos, independentemente de serem ou não seus súbditos.

O seu papel, ainda bem jovem, na transição do Império Britânico (à escala planetária e onde o sol nunca se punha) para a Commonwealth, onde manteve, até aos dias de hoje, a chefia de 14 Estados, bem como a sua serenidade e lendária imparcialidade, revelou-se ímpar. E todas as demonstrações de júbilo e afecto, inclusivamente de assumidos republicanos, um pouco por todo o mundo, na hora da sua morte, o confirmam.

Por estes dias, ficou também demonstrado ao mundo como só o Reino Unido é simultaneamente capaz de manter a tradição inspirando a modernidade, bastando para tal comparar coincidências e diferenças entre os funerais de Estado de Isabel II e de seu pai, o Rei Jorge VI, no longínquo ano de 1952.

Quanto a Portugal, país de republicanos (daqueles de bater com a mão no peito), nestes momentos de júbilo, encantados com a estética (já não com a ética) monárquica britânica, dias a fio de directos televisivos, mais de 150 anos depois, em nada nos distinguem do provincianismo hipócrita tão bem caracterizado no “Lodaçal” que o sempre atento João da Ega, de “Os Maias”, tão bem anunciou escrever – naturalmente, nunca concluído.

Nada contra, antes pelo contrário, a presença do nosso chefe de Estado em tão notáveis cerimónias fúnebres, muito mais justificável do que em muitos outros eventos nacionais ou internacionais, sublinhando uma das mais antigas alianças soberanas mundiais, que subsiste desde o Tratado de Windsor, de 1386, várias vezes reforçado em momentos críticos da nossa história.

Tudo contra a hipócrita e selectiva cegueira ideológica dos sempre atentos (para o que lhes interessa) BE e PCP nas críticas aos “tiques de riqueza da monarquia” em detrimento do seu povo, como se nos países com regimes por estes partidos defendidos se verificasse mais igualdade do que neste país do G7.

Contudo, é, quanto a mim, totalmente exagerado e provinciano o luto nacional de três dias decretado pela morte de um chefe de Estado estrangeiro, por mais notável que tenha sido o seu percurso, merecendo a mesma dignidade que antigos chefes de Estado, como Mário Soares ou Jorge Sampaio!

As relações entre Estados soberanos deverão ser sempre orientadas pelos princípios da igualdade e da reciprocidade. A pergunta que coloco é se algum dia a Velha Albion decretaria três dias de luto nacional pela morte de um chefe de Estado português, por mais carismático que fosse.

Em momentos de exaltação forasteira e profundamente estética, como é o caso, deveremos sempre ter presente que um país que não se respeita nem se dá ao respeito não é pelos outros respeitado.

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