Opinião

Intolerância à frustração: o novo desporto nacional

Saúde é sinónimo de flexibilidade e capacidade de adaptação. Assistimos hoje em dia a um verdadeiro boom de campanhas a favor do chamado “estilo de vida saudável”, mas a vontade de ter hábitos e rotinas exemplares não chega.

Teresa Rebelo Pinto


Saúde é sinónimo de flexibilidade e capacidade de adaptação. Assistimos hoje em dia a um verdadeiro boom de campanhas a favor do chamado “estilo de vida saudável”, mas a vontade de ter hábitos e rotinas exemplares não chega. É preciso aprofundar o conceito de saúde e tudo o que ela envolve, sobretudo do ponto de vista das competências de autorregulação.

Há muito que abandonámos a visão da saúde como a mera ausência de doença. De acordo com a OMS, corresponde a um “estado de completo bem-estar físico e mental”, o que levanta questões pertinentes quanto à gestão das emoções.

As pessoas com saúde mental têm mais facilidade em lidar com o imprevisto, aprendem com o erro e mostram-se relativamente maleáveis perante situações adversas. Já Darwin defendia: sobrevivem melhor aqueles que se adaptam ao ambiente.

É verdade que não gostamos de tentativa e erro, mas é assim que aprendemos, não há volta a dar. Quem foge ao confronto com as falhas, perde a oportunidade de ouro para desenvolver estratégias de tolerância à frustração. Aliás, todos os funcionamentos patológicos envolvem rigidez, seja ela física, cognitiva ou emocional.

A vivência da frustração é então uma realidade incontornável e absolutamente necessária para o crescimento pessoal. Caso contrário, corremos o risco de ver pessoas aparentemente adultas lidar com a frustração com a (falta de) maturidade correspondente a uma criança de 5 anos. Arrisco-me a dizer que algumas crianças dessa idade são mais habilidosas a gerir emoções do que muitos adultos.

Quando não sabemos lidar com zangas, imprevistos ou desilusões, procuramos sistematicamente ignorar as situações difíceis de lidar. Para resolver esses estados emocionais, em vez de nos adaptarmos, procuramos “fazer justiça”, culpar alguém pela nossa sensação de fracasso ou simplesmente fazer de conta que não existe a situação adversa. O resultado é desastroso e preocupante. Saber identificar emoções, antecipá-las e ser capaz de as transformar em energia útil é fundamental. Para os adultos que ainda não desenvolveram tais competências, talvez esteja na hora de as fazer crescer.

Outro aspeto fundamental para aprender a ser mais tolerante – e como tal, mais saudável – é o exemplo. Se o futebol é o desporto rei dos portugueses, não deveria ser exemplar na sua conduta? Como é possível que os debates televisivos se assemelhem a telenovelas, que os treinadores sejam frequentemente punidos por mau comportamento e que se festejem vitórias como se não estivéssemos em pandemia? Faz falta viver o futebol num registo mais desportivo e saudável, em que todos são capazes de aguentar a frustração e seguir em frente.

Se é importante celebrar conquistas e cumprir rituais, mais importante ainda será respeitar limites e aprender a viver com o que há. Um verdadeiro campeão adapta-se às circunstâncias.

*Psicóloga, certificada em Sono pela European Sleep Research Society. Fundadora da Clínica Teresa Rebelo Pinto – Psicologia & Sono, onde coordena uma equipa de psicólogos.