Opinião

Inovar no Alentejo. Mais que uma obrigação, um desígnio

João Grilo


Há muito que está demonstrado que a conjugação entre a inovação, de base científica e tecnológica, e a promoção do potencial dos recursos endógenos de um território é um motor incontornável do desenvolvimento sustentado que ambicionamos.

Se inovar é “a introdução no mercado de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado ou a introdução de um processo de produção novo ou significativamente melhorado incluindo métodos de distribuição de produtos” (Manual de Oslo, OCDE), ainda estamos longe de poder dizer que há no Alentejo uma cultura de inovação dominante.

O tecido empresarial da região, caracterizado pela predominância das micro, pequenas e médias empresas, de base familiar ou semifamiliar, apresenta uma dinâmica produtiva expressiva assente na diversificação, com destaque para as atividades agrícolas, agroindustriais e da exploração de recursos geológicos e minerais, entre outros e tem vindo a evoluir de forma assinalável, sobretudo na última década. Contudo, muitas empresas ainda se limitam a reproduzir ano após ano, mesmo década após década, as mesmas “receitas” de sempre, os mesmos produtos, a mesma imagem, para os mesmos mercados o que faz com que os indicadores de inovação empresarial da região sejam considerados débeis (Inquérito Comunitário à Inovação – CIS 2014).

Mas há um caminho a ser percorrido. São cada vez mais as que integram na sua estratégia de crescimento mecanismos de constante inovação a todos os níveis da cadeia de produção. São também cada vez mais as que recorrem aos centros de produção de conhecimento científico para introduzir inovação nos seus processos e produtos. São cada vez mais as que procuram integrar licenciados nos seus quadros. E também são cada vez mais as que procuram ambientes de crescimento conjunto e entreajuda, apoio para a internacionalização ou para acesso a fundos comunitários e outros financiamentos.

É urgente transformar este movimento numa tendência concertada e estruturada a nível regional, fomentando uma verdadeira cultura favorável à inovação.

Sabemos que há fatores críticos que devem concorrer em conjunto para que tal aconteça: o desenvolvimento dos níveis habilitacionais e as competências técnicas dos empresários e dos recursos humanos que gerem (sem esquecer a valorização de competências e a aprendizagem ao longo da vida); o acesso a infraestruturas TIC bem desenvolvidas, com impacto na melhoria do acesso à informação relacionada com produtos inovadores, na criação de mercados e na disseminação de novas ideias e de novas tecnologias; o acesso a financiamento público de apoio à inovação; e condições infraestruturais e institucionais de apoio à inovação, estruturadas em sistemas regionais de inovação, abrangendo os Centros de I&D (Universidades, Institutos Politécnicos ou outros centros de competências), entidades de interface e a envolvente empresarial, sustentando um processo de aprendizagem, absorção e posterior valorização económica do conhecimento, promovendo-se assim a inovação através de diferentes agentes.

Além do trabalho com os empresários instalados, é importante criar nos viveiros e incubadoras de empresas verdadeiras “escolas de negócios” onde quem tem uma ideia inovadora ou pretende abraçar um negócio tradicional e dar-lhe uma nova roupagem encontre o ambiente e o apoio certo, assim como criar uma cultura de empreendedorismo e de “prática da inovação” que percorra todos os níveis de ensino e contextos de aprendizagem extracurriculares para encontrarmos o mais cedo possível os empresários do futuro: abertos à inovação, habituados ao risco, predispostos para a cooperação e com o mundo como horizonte.

As instituições de ensino superior da região e outros centros de investigação têm, neste processo, um papel crucial. São os locais, por excelência, onde se alia teoria e prática e onde o conhecimento de base científica pode ser colocado de forma prática ao serviço das empresas.

Vários são os projetos em curso na região que são exemplo disso: melhoria da produção equina (“EQUI MAIS”, Instituto Politécnico de Portalegre, Instituto Politécnico de Santarém e Universidade de Évora); valorização do cardo (folha e flor) (“CynaraTeC”, CEBAL, I. P. de Beja e Universidade de Évora); bioproteção do tomateiro contra a fusariose (Universidade de Évora); rega de sobreiros (“Regacork TraDE”, Universidade de Évora); apoio à gestão de olivais e à certificação de material vegetativo de variedades de oliveira nacionais (“GESCERTOLIVE”, Universidade de Évora e I. P. de Portalegre) ou o projeto PISTA - Partilha de Informação sobre a Sustentabilidade do Turismo no Alentejo, da Universidade de Évora.

A ADRAL – Agência de Desenvolvimento Regional do Alentejo, tem uma estratégia de longo prazo traçada com vista ao contributo para o estabelecimento de um ecossistema de inovação regional robusto e capaz de gerar aumentos de competitividade relevantes no tecido empresarial que o integra.

Com base na experiência desenvolvida ao longo das atividades de gestão de espaços de dinamização do empreendedorismo e inovação, a nível regional, nacional e internacional, a ADRAL adquiriu um vasto e sólido conhecimento sobre a implementação e desenvolvimento de iniciativas de empreendedorismo e aceleração de empresas e ideias. Com a construção da Aceleradora Rui Nabeiro, a ADRAL pretende unificar num centro de inovação digital, os serviços de apoio técnico e os espaços de empreendedorismo da agência e fomentar uma permanente integração com parceiros chave, ao nível das instituições de ensino superior, dos municípios e serviços da administração pública, mas também de empresas âncora, líderes nas suas áreas, que possam contribuir com desafios e projetos para a aceleração e concretização de projetos geradores de valor para o território.

Mais do que uma obrigação face a um mundo em acelerada mudança, a criação de uma cultura de inovação deve envolver todos os agentes da região num desígnio único: garantir que a partir da nossa cultura e entorno natural construímos o nosso desenvolvimento futuro.

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