Opinião

In vino veritas

Octávio Lousada Oliveira


Confesso, vi o coiso. Vamos chamar coiso à coisa que no início da semana foi posta a circular nas redes sociais com o intuito, presumo, de denegrir a imagem de um homem. No coiso, um vídeo amador de antanho gravado nas ruas de Bruxelas, Paulo Rangel foi “apanhado” a trocar os pés depois de um convívio à mesa com amigos, como o próprio eurodeputado reconheceu, com enormíssimo fair play e classe ao alcance de poucos.

Através do coiso que, sabe-se lá porquê, conheceu agora a luz do dia, tentaram apoucar alguém - um ser como qualquer um de nós, tão humanamente falível e tão divinamente imperfeito - expondo a parcela da sua vida, a privada, que não nos deveria interessar nada. Niente.

Não existe razão atendível para captar e propagar imagens sem consentimento do(s) visado(s). Ainda menos de alguém cujo pecado terá sido beber uns copos a mais e - sublinhe-se a heresia - que rumou a casa caminhando tranquilamente, sem pôr em causa a sua integridade física e a segurança de terceiros e, pelo que nos chegou através do coiso, sem provocar qualquer incidente. Adequa-se o adágio latino in vino veritas. Naqueles momentos que o coiso nos revelou, Paulo Rangel revelou-nos a sua verdade, a sua natureza, aquilo que, desinibido, é: consciente, pacífico, temperado. Uma raridade, em tempos de cólera.

Contudo, mais do que o voyeurismo que coisas como o coiso sempre suscitam, preocupa-me o caldo em que o nosso espaço público está transformado. Ao político contemporâneo não são permitidas falhas. Ao dirigente partidário-modelo não são consentidos vícios. Ao representante do povo e aos que exercem o poder em seu nome não são autorizadas vontades.

Longe vão os tempos em que o pequeno defeito dava cor e espessura aos nossos mais altos dignitários. Parece que foi noutra vida que o jogo de luzes e sombras, o contraste e a coabitação entre virtudes vincadas e defeitos intratáveis (quer públicos, quer privados), elevavam as nossas referências a semideuses por serem tão completamente humanos.

No filme “Druk - Another Round”, Martin, um professor interpretado por Mads Mikkelsen, apresenta aos alunos três perfis de políticos nos quais poderiam votar. Desafia-os a escolherem. Um fuma bastante, bebe Martini, trai a mulher; outro enfrenta uma depressão, tem excesso de peso, devora charutos e encharca-se em whisky; o terceiro é um militar coberto de condecorações, imune a excessos e apaixonado por animais. Os jovens foram lestos e unânimes. Prescindiram dos ímpios e dissolutos Franklin D. Roosevelt e Winston Churchill e optaram, sem saber, pelo impoluto e recomendável Adolf Hitler.

Na mundividência moderninha, higiénica, asséptica e cinzenta não sobra espaço para que os seres humanos sejam plenos, íntegros ou desviantes. O caminho adivinha-se penoso. Ao ponto de, para se ser um homem de Estado, ter de se sacrificar o estado de homem.

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