Opinião

Igreja Católica

Joaquim Jorge


A propósito do eventual encobrimento de casos de pedofilia, quer pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, quer por vários bispos, convém lembrar que as denúncias partiram de dentro da Igreja, feitas por padres.

A Igreja Católica tem de evoluir e adaptar-se aos novos tempos. O Papa Francisco foi criticado e contestado, mas ele é que estava certo. Não sei se vai conseguir mudar este estado de coisas dentro da Igreja, mas durante o seu mandato houve evolução e uma forma de pensar mais moderna e correcta.

A Igreja parece ter parado no tempo e vive num mundo à parte. É pena, pois cada vez tem menos seguidores e crentes. Mantém um machismo institucional da Idade Média, não aceitando mulheres na sua hierarquia. O celibato é um voto obrigatório, que não faz sentido, assim como a pobreza e a obediência. Os padres estão proibidos de ter relações sexuais, mas fazem-no às escondidas com menores.

Há uns tempos, a Conferência Episcopal da Austrália recordou, para quem estivesse distraído, que “os confessores não podem ser forçados a revelar delitos”. Se houvesse confissão, seria contra a fé e a liberdade religiosa. Compreende-se. Na Austrália, os casos de pedofilia na Igreja atingem cerca de 7% dos sacerdotes que trabalhavam entre 1950 e 2010, que estão implicados em abusos sexuais. Em alguns lugares chegaram a 15%.

O direito canónico considera o segredo de confissão algo inviolável, sob pena de excomunhão. Infelizmente, está a respeitar-se o segredo do pecador, mas não o pecado de quem o praticou, abusando de crianças. Neste caso, a legislação civil deveria sobrepor-se à da Igreja que permite a sua dispensa. Dever-se-ia ter em conta o direito penal, e não o direito canónico, de forma a proteger as vítimas de crimes e a poder perseguir os delinquentes. O perdão divino limpa todos os pecados depois de se rezar umas ave-marias?! A Igreja ignora os sinais que a sociedade está a dar-lhe, exigindo que se faça justiça. Por este andar, cada vez há menos católicos. Muitos dizem-se católicos não praticantes, mas a Igreja já nada lhes diz. A batalha moral começa a ficar perdida.

Encobrir sacerdotes acusados de pedofilia é horrendo e inexplicável para a maioria da opinião pública. Um crime de pedofilia (abuso sexual de crianças) não pode ter perdão e deve ser punido exemplarmente. É horripilante, assustador, tenebroso e medonho.

Em Portugal foi criada uma comissão independente para investigar abusos sexuais na Igreja Católica, que já recebeu 290 testemunhos, dos quais 16 ainda não prescreveram e foram remetidos para o Ministério Público. Começo a ficar com a ideia de que é mais uma comissão que não vai dar em nada pela constante obstacularização da própria Igreja, como se vê por estes encobrimentos. Depois, no final dos trabalhos, será elaborado um relatório, a ser entregue à Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que decidirá que acções tomar. Está-se mesmo a ver no que vai dar! Tudo arquivado e prescrito, e assim vai a nossa querida Igreja, que não foge à regra das restantes instituições portuguesas.

A Igreja tem excesso de poder e ninguém deve estar acima da lei. Temos de acabar com privilégios de classe. Os padres são cidadãos, como qualquer um de nós, não podem cometer um crime e ficar impunes. Os juízes, de igual modo; os médicos e professores, idem aspas.

A Igreja está isenta do pagamento do IMI, IRC e IVA na grande maioria das situações. Os donativos feitos à Igreja deveriam ser acompanhados de factura mas, como sabemos, não são. Na Evangelii Gaudium, o Papa Francisco denunciou a "corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais".

A Igreja está doente e precisa de um banho de realidade. Temo que haja um retrocesso se o Papa Francisco abdicar por doença e incapacidade de cumprir a preceito as suas tarefas. É importante pensar nas vítimas de abusos sexuais.

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