Opinião

Haverá esperança para um zombie amordaçado?

Nuno Lebreiro


Na passada semana, o prof. Cavaco Silva publicou um artigo que, como é seu merecido costume, deu brado e colocou a paróquia política portuguesa em grande alvoroço. À esquerda acusou-se o toque, a crítica e, sem contra-argumentos, sobrou apenas o ressentimento típico daqueles que, imaginando-se donos do país e do regime, ainda não alcançaram por que razão o filho de um gasolineiro de Boliqueime tornado académico com um doutoramento em York conseguiu tornar-se o político mais bem-sucedido da democracia portuguesa. À direita, as reacções dividiram-se entre a entusiasta celebração pelas oposições às direcções de PSD e CDS e, naturalmente, o silêncio constrangedor dessas mesmas direcções políticas.

As razões são simples: em primeiro lugar, não há ninguém com maior autoridade moral para falar de crescimento e desenvolvimento económico em Portugal do que o prof. Cavaco Silva. Afinal, foi com ele que o país viveu o período de maior abastança e crença no futuro da democracia portuguesa. Depois, e em segundo lugar, os argumentos que apresentou foram simples, claros, inatacáveis na sua crua veracidade, bem como importantes o suficiente para revelar a nudez do rei socialista que se passeia pela comunicação social indígena como salvador da pátria “contra a austeridade”.

De realçar ou resumir, no artigo do prof. Cavaco Silva ficam alguns aspectos fundamentais: desde logo, o empobrecimento factual e inegável a que os últimos 20 anos condenaram o país. De facto, considerando o pântano de Guterres de 2001 e a bancarrota Sócrates de 2011, a verdade é que o PSD (e o CDS) apenas foi chamado a governar para inventar e, de recurso, intentar resolver os problemas criados pelas políticas socialistas. Entretanto, desde a revolução constitucional de 2015 que furou o cordão sanitário e trouxe a extrema-esquerda para o arco governativo, o PS, em conluio com essa extrema-esquerda, confirmou-se como a maior força de bloqueio ao desenvolvimento do país, revelando-se como pouco mais que um agente de exploração dos portugueses, sacando através dos impostos aquilo que distribui pressurosamente por si próprio, por amigos ou por corporações que garantam benesses eleitorais às suas lideranças de circunstância.

O resultado foi um impasse constitucional em que, desde que haja maioria à esquerda amancebada com a extrema-esquerda comunista, o PS governa sempre. Assim, garante-se aos portugueses um empobrecimento inexorável e progressivo, bem como uma incapacidade para que apareçam condições políticas de verdadeira mudança. Essas condições também não surgem – e o prof. Cavaco Silva também mencionou este aspecto – porque o Partido Socialista conseguiu tomar as rédeas de um conjunto enorme de instituições que se pretenderiam independentes, bem como, através do peso do Estado, exercer influência indevida não apenas na opinião pública, mas também na censura através do medo e da chantagem a muita gente que, por medo, acaba por calar-se ou, pelo menos, baixar o tom da crítica face ao poder governamental.

Esta ideia de que há medo de falar politicamente na sociedade portuguesa é letal para o bom funcionamento de uma democracia – mas não será por isso menos verdadeira. De facto, desde a comunicação social dependente da publicidade institucional, das subscrições compradas por atacado ou dos subsídios inseridos nos célebres 15 milhões de euros, o espaço de crítica, crivo e fiscalização da governação é fortemente cerceado. Ao mesmo tempo, fazendo depender o sucesso dos negócios de uma rede burocrática em que ninguém consegue navegar, de um sistema judicial lento, pejado de atrito, quando não parado, bem como da sinalização estatal sobre onde pretende “apoiar” a economia, seja como fonte de subsídio, seja como cliente, a verdade é que o funesto manto do silenciamento da dissensão por necessidade de sobrevivência, um caruncho próprio dos regimes socialistas, é hoje parte integrante da vida portuguesa.

Deste modo, como o célebre polvo, o poder socialista estende-se hoje muito para lá do espaço político, ao país como um todo: ao Estado, naturalmente, mas também às entidades reguladoras e fiscalizadoras, bem como à comunicação social e, pior, à própria sociedade, imiscuindo-se já na vida das famílias, seja no campo dos valores ou, consequentemente, da assunção da regulação da vida das crianças e dos jovens, que pretende progressivamente, e a mando da extrema-esquerda, resgatar para o nível burocrático e estatal. Que haja medo, prurido ou pejo de criticar o Governo, bem como um receio sobre a mera possibilidade para se viver em liberdade plena, é uma consequência deste poder real e ideológico que o Governo e o Estado têm em Portugal, capaz mesmo de gerar um amordaçamento, um estrangulamento da democracia, quando não já uma formatação e doutrinação ideológica das próprias pessoas, em particular as mais vulneráveis, como as crianças e os jovens.

Mas a situação é ainda mais complexa, e a isso alude também o prof. Cavaco Silva num terceiro aspecto que importa reter. Além da governação, o outro pilar que sustenta uma democracia é a oposição política, que critica, escrutina e denuncia o poder instalado. Mas essa, em Portugal, também não há, pelo menos nos moldes em que uma democracia saudável o exigiria. O prof. Cavaco Silva, de uma forma elegante, resumiu o estado da oposição numa palavra que, imagina-se, terá escolhido com ponderação e o devido cuidado: débil. E débil é pouco.

A verdade é bem mais sinistra do que pura debilidade: seja por estratégia, seja por incapacidade, entre a ausência de denúncia, que oferece rédea livre à governação, e a disponibilidade para “reformar” o país com o PS, a oposição, em particular a do PSD do dr. Rio, não passa de uma muleta que, quando não serve de saco de pancada formal para eleitor ver, apenas ajuda a resolver problemas do primeiro-ministro e demais pandilha associada. O pior exemplo, e um que espelha bem como essa atitude prejudica a qualidade democrática do país, foi a colaboração activa de Rui Rio no cancelamento dos debates quinzenais na Assembleia da República. Uma vergonha, um desatino, um péssimo serviço ao país.

Em suma, vivemos hoje, em Portugal, numa democracia enfraquecida, bem como num país empobrecido, ainda para mais tutelado por um partido que tudo influencia, quando não controla. De caminho, o povo e as empresas são sobrecarregados com impostos sumptuosos que, sem retorno ao nível de serviços, apenas servem para sustentar a governação, governação a qual se ocupa apenas de manter e aumentar o seu poder, criando com isso uma economia cada vez mais estatizada, dependente, pobre e, não menos fundamental, menos atractiva para captar investimento e capital estrangeiro.

No fundo, é uma espiral de empobrecimento que caracteriza o Portugal destes anos 20: o Governo aumenta o controlo sobre a sociedade, causando menor competitividade; essa menor competitividade implica menos riqueza e menor capacidade de atracção de capital; e, naturalmente, menos capital e menos riqueza geram uma maior vulnerabilidade e dependência das pessoas face a um Estado que, sem escrúpulo ou prurido, pela mão do PS, aproveita para aumentar o seu controlo e dirigismo. Trata-se, pois, de um verdadeiro círculo vicioso.

Em boa verdade, a situação, para quem conheça o PS já desde Guterres – agora, quer financeira quer moralmente ocupado a falir a ONU –, não é de estranhar: a única coisa que impedia a espiral socialista amordaçante de escavar o buraco onde enterra agora zelosamente o país era a realidade internacional. Esta, precisamente por ser alavancada no real, consubstanciada nas vilipendiadas agências de rating e nos mercados que, em troca de juros, nos emprestavam o dinheiro que não tínhamos para os socialistas estafarem naquilo de que não precisávamos, representava um travão não apenas ao endividamento, mas à deterioração da própria economia: quanto mais não sendo por não emprestar dinheiro, causando uma falência – como em 2011 –, sempre que, enredado por maus caminhos, mais tarde ou mais cedo, a realidade dos mercados internacionais forçava o país a emendar a mão e a corrigir os erros, normalmente feitos pelo PS – e emendados pelo PSD, como foi notório em 2011-15.

No entanto, este travão desapareceu. Com a política de quantitative easing do Banco Central Europeu de compra de dívida portuguesa nos mercados secundários, o país, pela mão do PS, continua a conseguir financiar-se a juros simpáticos, mesmo que quase ninguém no seu juízo perfeito comprasse esses títulos de dívida se não achasse que o BCE os compraria imediatamente a seguir.

Pior: a desgraça portuguesa não deixa de significar também um acto de traição. Traição dos governantes, traição dos socialistas, traição de todos aqueles que, em troca das suas próprias conveniências políticas, não se importaram de trespassar a independência nacional. De mão estendida, o bom aluno português dos anos 90, agora transformado em pedinte viciado em Estado, é artificialmente mantido tal como está pela banca central europeia. E do mesmo modo como a subsidiação às empresas cria autênticos zombies que, mesmo não rentáveis nem úteis, apenas se mantêm de pé pelo artifício do financiamento público, também o quantitative easing europeu se apressa agora a transformar o nosso país num zombie estatal: não anda para a frente nem para trás, não tem autonomia, não vive, mas não cai. Pelo caminho, às cavalitas dos portugueses, os socialistas tratam de si e dos amigos.

O PS “zombificou” o país, alienou a nossa soberania nacional, hipotecou o nosso futuro e o dos nossos filhos, isto ao mesmo tempo que coloca em perigo a nossa democracia. Perante este cenário, em silêncio, a direita de Rio e de Rodrigues dos Santos entretém-se nas últimas semanas a contar caciques internos, a inventar datas para eleições e a criar manigâncias eleitorais diversas apenas com o intuito de se safar a si própria e aos seus respectivos lugares – mesmo que a expensas do país.

Nesse aspecto, lamentavelmente, não se distinguem os dois actuais presidentes do CDS e do PSD nem um pouco dos dirigentes socialistas. Sobra, portanto, a esperança de que os ventos de mudança que sopram na direita ganhem fôlego e consigam resgatar, pelo menos e desde já, um dos pilares fundamentais de uma democracia – o de uma oposição honesta, corajosa, meticulosa, substancial, capaz de oferecer um corte com esta espiral “zombificadora” em que o socialismo nos enfiou. E porque uma alternativa ao socialismo, pelo menos por enquanto, apenas poderá ser liderada pelo PSD, a mudança fundamental passará necessariamente pela capacidade de Paulo Rangel conquistar a liderança do PSD. Por todas estas razões, conta com o meu voto.

PUB