Opinião

Há vida para além do Orçamento

Rui Rocha


O Presidente da República tem promovido, há pelo menos duas semanas, uma intensa campanha que pretende criar a ideia de que a alternativa à aprovação do Orçamento é o caos. Nesta cruzada, todos os argumentos servem, desde a crise dos combustíveis à deficiente execução dos dinheiros da bazuca, passando pelo possível regresso de uma situação pandémica mais agressiva, que ainda hoje foi invocado. Até ver, só falta mesmo acenar com uma eventual aparição do temível Homem do Saco.

Ora, se é certo que qualquer destas ameaças paira realmente sobre o país, com excepção, talvez, da relacionada com o Homem do Saco, nenhuma delas justifica este clima de chantagem emocional que o Presidente quer instalar para forçar a aprovação de um Orçamento, um Orçamento qualquer, a qualquer preço. Recorde-se, por exemplo, que em 2011 os portugueses foram chamados às urnas em plena intervenção externa, num cenário de pré-bancarrota. Não foi esse contexto de crise profunda que impediu o funcionamento dos mecanismos democráticos.

Aliás, esta crispação artificial da situação política insuflada a partir de Belém corre o risco de provocar o efeito contrário ao pretendido pelo Presidente. O cenário de crise política, que há 15 dias parecia improvável, começa a ser considerado como uma saída desejada por quem não gosta de ver o seu juízo condicionado por pressões desproporcionadas e difíceis de justificar.

Os partidos que estão a negociar a viabilização do Orçamento devem ter liberdade para fazer um juízo crítico das opções em presença. Se houver condições para aprovação, é a democracia a funcionar. Se não houver é, ainda aí, a democracia a funcionar também. É isso, e apenas isso, que o Presidente deve preocupar-se em garantir. A célebre frase de Jorge Sampaio sobre a vida que existe para além do défice marcou um momento. Está talvez na altura de alguém recordar a Marcelo que também há vida para além do Orçamento.

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