Opinião

Há viagens sem regresso

Rita Matias


O “querido mês de Agosto” é um mês dado a viagens e festas. Um mês de regressos e reencontros. No entanto, este ano, à aldeia dos nossos avós, a que carinhosamente chamamos nossa, voltam quase todos, mas não todos. Alguns não podem voltar porque iniciaram novos projectos, novos ciclos, ou porque viram a vida dar um trambolhão neste contexto de inflação. Contudo, tu não voltaste porque a viagem da tua vida foi interrompida de forma abrupta por uma outra viagem. Uma má viagem. Literalmente. É que há experiências em que os picos de adrenalina, a velocidade e a euforia nos levam a embarcar em viagens das quais podemos não regressar. A máxima destas viagens é que vai correr tudo bem – afinal, o mal acontece sempre só aos outros. Mas, na tua história, o azar bateu à tua porta. A bad trip foi mais forte. De um instante para o outro deixaste de ser quem eras porque uma maldita substância psicotrópica roubou a tua identidade. Foste para o mundo do irreal, onde os fantasmas, as vozes e as alucinações ocupam o lugar da normalidade e da vida comum. A fronteira entre a realidade e a ilusão foi abolida. O real deu lugar ao delírio. A voz de comando passa a ser a dos teus medos, e não a da tua vontade. “Manda-te daqui para baixo.” “Vem ter comigo.” Tantos falsos apelos que num acto de desespero te levam a saltar para o abismo.

Nunca como hoje os jovens tiveram à mão tantas substâncias psicoactivas e com um poder tão forte e destruidor de sonhos e projectos. As políticas de combate às drogas falharam porque o número de consumos aumentou, principalmente em ambientes recreativos, espaços de lazer onde o álcool serve de lubrificante social para novas experiências. Abertos os alçapões, as substâncias nocivas com poder letal fazem aumentar o número de bad trips.

A bad trip é, no fundo, uma má experiência no uso de drogas alucinogénicas que potenciam o pânico, atentados contra a própria integridade física, tendências suicidas, depressões.

Muitas destas “viagens” resultam apenas em episódios de alucinação, outras em psicoses para o resto da vida e, infelizmente, muitas outras em suicídio.

Canábis, charros sintéticos, ácidos, pastilhas. Meios de “diversão” e alheamento da realidade, consumidos muitas vezes por jovens ainda em fase de desenvolvimento do cérebro, que desta forma condicionam todo esse desenvolvimento e que podem provocar frequentemente danos irreparáveis e irreversíveis. Este é o lado da história de que poucas vezes ouvimos falar, mas que vale a pena ser partilhado. Para que mais nenhum jovem veja a euforia do momento roubar-lhe a alegria de uma vida. Uma má viagem não leva desta vida apenas quem consome. Leva consigo famílias, amigos e todos aqueles que cá ficam a chorar os entes queridos.

Este ano voltamos à festa na aldeia e, mesmo sabendo que a alma da festa não veio, mesmo não tendo lá à espera o teu olhar sereno e a alegria que a todos contagiava, estaremos lá para te lembrar e para fazer memória da tua vida nas nossas vidas.

PUB