Opinião

Grau de heroísmo numa escala de zero a Mariupol

Leonardo Ralha


À hora a que este jornal chegar às bancas é possível que as tropas russas tenham tomado a siderurgia Azovstal, onde militares ucranianos se entrincheiraram enquanto os invasores se dedicavam à groznificação da cidade de Mariupol.

Distante dos olhos do mundo por alguns dias, o tenente-coronel Denys Prokopenko, veterano dos combates com separatistas pró-Rússia apesar de só ir a caminho do incerto 31.º aniversário, divulgou nesta quarta-feira um vídeo a dar conta de que a situação se tornou “extremamente difícil”, com “combates sangrentos” no perímetro do complexo industrial incessantemente bombardeado pela artilharia russa. Agradeceu o “apoio colossal de todo o mundo”, prometeu que a sua guarnição continuará a “cumprir a ordem de defender as suas posições”, mas talvez não volte a exclamar “glória à Ucrânia”. Os relatos dos poucos civis que conseguiram ser retirados das instalações, a desproporção das forças em confronto e a impossibilidade de ajudar quem tem atrás de si uma vastidão de território controlado pelo inimigo indiciam uma situação desesperada, pois até o cessar-fogo prometido pela Rússia para a evacuação de mulheres e crianças é algo que é preciso ver para crer.

Não faltará quem se esteja a borrifar, para não usar outra palavra, com o destino de Prokopenko e daqueles que resistem nos subterrâneos da Azovstal. Afinal, trata-se do comandante do Batalhão Azov, que nos últimos meses serve de respaldo justificativo a todos quantos acatam o argumento da “desnazificação” perante a maior agressão a um país soberano a que a Europa assistiu no século XXI. O nacionalismo desses soldados, muitos dos quais já negaram ser nazis, tem sido o colírio revertido que permite a muitos ocidentais, incluindo um assinalável contingente de portugueses, não ver as atrocidades cometidas por invasores que tudo têm feito para aterrorizar o povo ucraniano.

Acontece que tudo aquilo de bom e de mau que Prokopenko e os derradeiros resistentes da Azovstal tenham feito nas suas vidas se reduz a nota de rodapé devido às circunstâncias criadas por Vladimir Putin. Para os ucranianos, e não só, os heróis de Mariupol tornaram-se lendas, como os espartanos liderados pelo rei Leónidas que contiveram o avanço do imenso exército de Xerxes na Batalha das Termópilas, ou como aqueles que lutaram até ao fim contra as tropas mexicanas, cercados no Forte do Álamo, numa derrota estrutural para a identidade texana e, por arrasto, para a dos Estados Unidos.

Ninguém pode dizer com absoluta certeza quantos desses espartanos ou desses texanos eram facínoras da pior espécie, tal como decerto haverá alguns entre os sitiados no último reduto de Mariupol. Mas tudo isso passa para segundo plano, pois a coragem perante um inimigo incomparavelmente mais forte liberta-os desse crivo. Mesmo que fizessem leituras diárias do “Mein Kampf”, que o jornalista embebido nas tropas russas e deputado municipal comunista Bruno Carvalho encontrou num apartamento da cidade, numa descoberta partilhada nas redes sociais. “Glória à Ucrânia, glória aos heróis”, repete-se nas palavras que entraram no léxico de milhões. E os entrincheirados na Azovstal, tal como os 300 de Leónidas nas Termópilas e os 200 que morreram ao lado de Davy Crockett no Álamo, ficam como ícones de bravura e de vontade de derrotar o invasor.

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