Opinião

Governo novo, vida velha

Rui Rocha


Agora que já conhecemos os ministros escolhidos para o XXIII Governo Constitucional, identifico cinco sinais preocupantes e formulo, a partir deles, uma conclusão que estas primeiras indicações permitem intuir.

O péssimo começo: Costa garantiu que adoptaria uma posição de abertura apesar da maioria absoluta. A divulgação do nome dos ministros aos órgãos de comunicação social sem prévio conhecimento do Presidente da República revela, no mínimo, uma preocupante falta de respeito institucional e faz temer que a sobranceria seja a marca da abordagem socialista à nova legislatura.

O incumprimento da promessa de uma equipa compacta: o primeiro-ministro tinha avançado que este seria um Governo mais contido. É verdade que há menos ministros e secretários de Estado. Mas só por comparação com a dimensão absolutamente desproporcional do anterior Executivo se poderá considerar que a promessa foi cumprida. O novo Governo continua enorme, confirmando a ideia de que o PS privilegia a quantidade sobre a eficácia.

A aposta em ministros politicamente condicionados: é normal que os governos gozem de um período de estado de graça. As opções de Costa inviabilizam qualquer beneplácito em áreas determinantes. Marta Temido retoma funções desacreditada junto dos profissionais de saúde. Gomes Cravinho surge numa pasta dos Negócios Estrangeiros desvalorizada pela perda dos Assuntos Europeus, depois de episódios que tornaram impossível a continuidade na Defesa. Pedro Nuno Santos continua no ministério a gerir o dossiê da TAP, num sinal claro de que o respeito pelo dinheiro dos contribuintes está longe de ser a prioridade.

A fragilidade dos responsáveis pela Economia e pelas Finanças: Medina foi resgatado por Costa depois de ser derrotado nas eleições autárquicas em Lisboa e de ter acumulado percalços graves que marcaram o final do mandato. Siza Vieira, que era talvez o ministro com mais ligação à realidade do país, é substituído por Costa Silva. O lirismo sucede a uma das poucas reservas de pragmatismo do anterior Governo.

A luta pela sucessão: o Governo passa agora a integrar todos os putativos sucessores de Costa. Fica a dúvida sobre se o Executivo foi construído para servir o país ou para funcionar como vitrina para Duarte Cordeiro, Ana Catarina Mendes, Pedro Nuno Santos, Mariana Vieira da Silva e Fernando Medina. E não é impossível que a coesão da equipa acabe prejudicada pela luta entre delfins.

Em conclusão, tudo indica que este será um Governo de continuidade do marasmo, incapaz de se renovar, cada vez mais dependente de um núcleo fechado de fiéis de Costa. Depois de duas décadas de estagnação, o estatismo, a incapacidade de promover reformas estruturais, o conformismo e a gestão das clientelas continuarão a ser as marcas da governação socialista.