Opinião

Governador em tempos de cólera

Paulo Gorjão


Poucos dias depois do lançamento, é seguro dizer que o novo livro do jornalista Luís Rosa, “O Governador”, constituirá um dos acontecimentos editoriais do ano de 2022. Ao longo de cerca de 380 páginas, o autor, um jornalista de primeira linha cujo trabalho dispensa apresentações e que certifica a sua qualidade pessoal, aborda os dez anos de mandato (2010-20) do antigo governador Carlos Costa à frente do Banco de Portugal.

Com os dados recolhidos ao longo de 30 horas de entrevistas com Carlos Costa, repartidas por nove momentos, Luís Rosa partiu para uma reconstituição séria e minuciosa de um dos ciclos mais difíceis na história do Banco de Portugal. Um período que, importa lembrar, ficou marcado pela extrema necessidade que o banco central teve de fazer face à crise das dívidas soberanas e à intervenção da troika em Portugal, bem como ao colapso do BES e do Banif. Uma década dramática e cujos estilhaços estamos ainda a gerir.

Além de outras entrevistas e de trabalho de investigação junto de fontes secundárias, Luís Rosa beneficiou do acesso privilegiado ao ex-governador e, por essa via, recolheu informação única e em primeira mão. Trata-se, infelizmente, de um trabalho de escrutínio com pouca tradição em Portugal, mas que muita falta faz no nosso espaço público. Não sendo uma obra definitiva sobre este período - nem terá essa pretensão -, em todo o caso, este livro será incontornável para quem vier a seguir, na medida em que apresenta a visão e o testemunho de um actor crucial e privilegiado. Se outro mérito não tivesse, que tem, só este já justificava a sua publicação.

Confrontado com o teor do livro, algo surpreendentemente, do meu ponto de vista, entendeu o primeiro-ministro, António Costa, recorrer aos tribunais em defesa do seu bom nome. Opção legítima, como é evidente. Afinal, também ele tem o direito, como alguém disse sobre outra pessoa e noutro contexto, a lutar “por aquilo que acredita ser a sua verdade”.

Surpreendentemente, houve quem preferisse questionar as motivações e o momento de Carlos Costa, questões absolutamente irrelevantes, como se a espuma efémera fosse mais importante do que a substância. E a substância, os tempos de cólera, estão descritos em pormenor no livro.

Não foi por acaso que Luís Marques Mendes, actualmente detentor de um dos mais influentes espaços de comentário televisivo, na apresentação da obra, referiu que, na sua opinião, que partilho, dificilmente o Ministério Público poderá deixar de investigar o que é descrito no livro sobre a queda e a resolução do Banif.

Quanto ao livro, irá fazer agora o seu caminho, editorial e não só, emancipando-se do autor. Mais do que um ponto de chegada, a publicação de um bom livro é, em simultâneo, um ponto de partida. Como se constata.