Opinião

Gigantes com pés de barro

Jorge Máximo


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E de repente a rica, organizada e moderna Alemanha vergou-se humilde e incapaz perante a dimensão de uma inesperada intempérie que, em pleno verão, transbordou os rios e enxurrou comunidades. Por aqueles territórios ninguém pensava ser possível, mas aconteceu. Um arrastão imparável que causou centenas de mortos, mais de um milhar de desaparecidos e muitos mais desalojados. São as alterações climáticas justificam. É a expressão da revolta da natureza perante a ambição consumista da humanidade. Não há escapatória, é uma realidade tanto irreversível como inevitável. Embora também ocorressem no passado, estes fenómenos vão passar a ser cada vez mais frequentes. Resta-nos apenas estar preparados para eles.

Mas se a até a toda poderosa Alemanha mostrou ter pés de barro, como seria se tivesse acontecido em Portugal?

Sou um dos filhos das cheias de 25 de novembro 1967, as maiores cheias de que há registo em Lisboa. Depois daquela noite, e segundo os registos oficiais, o país amanheceu com mais de 700 mortos e muitos milhares de desalojados. Para a maioria dos lisboetas, aquele foi o primeiro dia do resto das suas vidas. Avisados enquanto dormiam, a minha família materna foi das que se conseguiu salvar, mas também umas das muitas perdeu os poucos bem que tinha. O realojamento de milhares de pessoas desalojadas mudou definitivamente a face da cidade, criou bairros e facilitou relacionamentos. Eu sou o resultado de um deles. E apesar de não ter vivido aquele dia, sempre ouvi falar dele, pois ele tem estado sempre presente na memória da minha família.

No dia 22 de setembro de 2014, aquela memória esteve quase a repetir-se. E, nesse dia, eu estava entre os comandantes da cidade. Foi dos dias mais intensos que vivi enquanto vereador da cidade de Lisboa. Foi tudo tão repentino, como inesperado. Ainda não tinha começado a chover já Alcântara e outras zonas baixas da cidade estavam completamente submersas. Com a maré do rio Tejo a encher e a impedir o escoamento pluvial, o caneiro de Alcântara saturou com o caudal de efluentes dos concelhos a norte e começou a transvasar para a rede de saneamento da cidade. Tal como geiseres, as tampas de esgotos saltavam no ar para libertar o excesso de água que existia na rede. Quando a chuva chegou a Lisboa, o cenário que já era dramático apenas se agravou. Pareciam muitas coincidências simultâneas, mas como advoga a lei de Murphy, elas acontecem.

Felizmente, a tempestade deu tréguas, a maré mudou e o caudal escoou progressivamente para o rio. Não houve vítimas mortais, mas muitos viram os seus bens submersos e irreversivelmente perdidos. No dia seguinte, foi tempo para pôr as mãos à obra e de trabalhar na recuperação dos estragos. No entanto, aquela imagem de não termos conseguirmos avisar ninguém antecipadamente não me fazia sentir bem. Era a segunda vez naquele ano que sentia Lisboa como um gigante com pés de barro.

No dia 9 de fevereiro, a noite começou com fortes rajadas de vento que destruíram parte da cobertura estádio da Luz e impediram a realização de derby de Lisboa que decidiria o campeonato. Já o estádio tinha sido evacuado com sucesso, quando o vento agravou e foi acompanhado pela inevitável chuva intensa. Até à madrugada do dia seguinte pude assistir a um conjunto de estranhas coincidências que tornaram inoperantes todos os sistemas de suporte à proteção civil da cidade. Sim, até o famoso e caro SISREP falhou. Quer por incúria ou excesso de confiança dos serviços, quer por problemas orçamentais e falhas na cadeia de reporte, vários sistemas não tinham sido devidamente mantidos pelo que falharam, quando que não podiam falhar. Restou-nos a competência e experiência dos elementos das forças de socorro e, sobretudo, a melhoria do tempo já perto da aurora. Nos dias seguintes, interroguei-me várias vezes. Se isto é assim na capital do país, como será em cidades mais pequenas? Estaremos mesmo preparados para casos piores?

Estes dois episódios marcaram-me profundamente e foram determinantes para ter lançado um projeto de modernização e integração dos sistemas de suporte à resposta da cidade, que embora invisível ao público, foi dos que mais me motivou ao longo do meu mandato. Mas ainda muito ficou por fazer. Qualquer solução tecnológica nunca será suficiente se não for permanentemente integrada e concertada com os restantes sistemas de resposta nacionais, e não oriente de forma efetiva e determinante a decisão política, mesmo quando impopular. Sabemos que o investimento na melhoria da capacidade de resposta à urgência e no ordenamento do território são politicamente pouco atrativos e mediáticos, mas, se efetivamente acreditamos nas consequências das alterações climáticas, é mesmo onde não podemos descurar investimentos. Isso pode vir a salvar muitas vidas.

Após 2014, não tenho memória de mais cheias em Lisboa. Felizmente, a meteorologia tem sido condescendente com os sucessivos atrasos na execução do Plano Geral de Drenagem da cidade. Espero que tenhamos ativos noutra frentes, apesar da recente calmaria, a única certeza que temos é que voltarão a acontecer.

Nos últimos anos, o Ministério de Administração Interna tem estado no centro das notícias, quer por falhas operacionais ou outras más razões. Desde deficiências na manutenção que impediram a utilização de equipamentos de resposta, a problemas contratuais e de cobertura nas redes de comunicações dedicadas, têm sido várias as fragilidades que parecem adiar a atenção devida à nossa capacidade de resposta. Nem o próprio PRR, que inclusive tem um pilar específico para a transição climática, fala no assunto! Sabemos que há muita gente a trabalhar no tema, mas se não o valorizarmos no debate político, continuaremos sem perceber onde estamos e o que, efetivamente, necessitamos de fazer.

Nestas autárquicas mais do que promessas de serviços gratuitos, que têm sempre contrapartidas nunca anunciadas, gostava de ouvir falar de resposta operacional e de ordenamento do território. Gostava de ver os candidatos mais preocupados com a pedagogia e planeamento do que a anunciar os habituais “sound bites” que todos os eleitores gostam de ouvir. Sinto que os autarcas mais bem-sucedidos serão aqueles que maior consciência e preparação tiverem para as consequências das alterações climáticas nos seus territórios. Esperar que sejam os serviços municipais a liderar o assunto, ou apenas confiar que a mãe natureza não nos castigue é que não é Smart.