Opinião

Genebra

Rafael Pinto Borges


Começaram em Genebra as conversações entre a Rússia e os Estados Unidos sobre a “segurança europeia”. Moscovo espera mais do que isso: uma reedição do Congresso de Viena, ou, no fundo, uma reorganização da Europa, com a sua partição em esferas de influência e o fim da expansão da NATO para leste. Antes do início formal das negociações, os chefes das delegações, Serguei Riabkov e Wendy Sherman, jantaram com o lago de Genebra em fundo. A fotografia, se não for reveladora, é pelo menos instrutiva: Sherman, intimidada e retraída, perante um Riabkov confiante e sorridente. A Rússia dos anos 90 – imagem pálida, débil, do que fora nos seus passados imperial e soviético – desapareceu definitivamente. Isso é um facto por si mesmo, e de importância transcendental. Dizer, como repete o State Department, que a era das esferas de influência passou parece pouco, ou talvez nada, frente à realidade de uma Rússia reerguida.

O ponto crucial dos trabalhos é o estatuto da Ucrânia. Também aí o realismo seria bom conselheiro. Sabe qualquer alma que tenha alguma vez passado os olhos sobre um parágrafo de história da Rússia que, vista de Moscovo, a Ucrânia é inegociável. Isso nada tem que ver com Putin. Ocupe quem ocupar o Kremlin de Moscovo – o czar, os sovietes, Putin ou o autoproclamado “liberal” Navalny, se algum dia viesse a governar –, a Rússia nunca aceitará o alinhamento da Ucrânia com outro centro de poder. Um corpo indestrutível de motivos concorre para que assim não possa deixar de ser. O motivo histórico: a Rússia nasceu na Ucrânia, cujo território e cujo povo entende como inseparáveis da ideia que faz de si mesma. Nenhum líder russo aceitaria a perda permanente de Kiev, a que as crónicas chamam “a mãe das cidades russas”. O motivo cultural: 30% dos ucranianos têm o russo como língua nativa, 50% falam-no como língua doméstica e 40%, pelas sondagens, sentem-se como parte de “um só povo” com russos e bielorrussos. Por fim, o motivo geopolítico: para lá da conversa piedosa dos “valores” e da soberania dos pequenos Estados há, na realidade, o interesse dos grandes. Há 60 anos, os Estados Unidos não toleraram a colocação de mísseis nucleares soviéticos em Cuba, ainda que a ilha tivesse o direito soberano de escolher a sua política externa. Esperar que Moscovo venha a aceitar a militarização da Ucrânia é de uma ingenuidade que ajuda a explicar como, três décadas após o desaparecimento da Cortina de Ferro, o terror de uma grande guerra voltou a perturbar o sono dos europeus.

A solução para este problema é a evidente: reconhecer que a Rússia não é hoje o que era há 20 anos e que, enquanto grande potência, o país tem direito a uma região de influência. Isto não parece ter de significar a dilatação de fronteiras. Por dois terços da existência da Ucrânia como país independente, de 1991 a 2014, a Rússia respeitou o território ucraniano, incluindo o de maioria étnica ou linguística russa. O que Moscovo não está disposta a ver é a absorção da Ucrânia por um bloco geopolítico que não o seu. Numa reorganização europeia que mostre respeitá-la e integrá-la, a Rússia viverá bem com uma Ucrânia que, embora independente, lhe seja próxima. É se lhe negarem isso que Moscovo fará a guerra. Aí, novamente, o assunto é demasiado sério para poder ser visto pela lente infantilizadora das “boas” e “más” intenções. A política, e mais ainda a dos grandes Estados, tem por factores os interesses e a capacidade de realizá-los – não os “princípios”.

A definição de áreas de influência não é coisa do passado ou do futuro. Não é uma relíquia do século XIX, como toscamente diz a diplomacia liberal de Biden. É uma fatalidade em todos os momentos em que o poder está concentrado em mais que um pólo. As esferas de influência desapareceram nos anos 90 pelo simples motivo de que a superpotência americana gerou para os Estados Unidos uma esfera de influência mundial – a isso se chamou globalização. Mas o momento unipolar da América passou. A América e o Ocidente podem admitir essa realidade – desagradável para uns, risonha para outros – ou desperdiçar energias a a tentar parar o fluxo invencível da História. Isso significaria, no caso, a hostilização permanente da Rússia e atirá-la para o abraço da China; acabaria com uma Eurásia unida sob o manto dominador de Pequim, que neste futuro possível, mas evitável, reduziria a Europa a península cercada e veria, um dia, bases da república popular no Báltico e os seus mísseis na Crimeia. A alternativa – uma Rússia tratada com a dignidade que merecem as grandes nações, com direitos de primazia na sua periferia e trazida de volta à casa comum da civilização europeia – é o que poderia sair, por um milagre de bom senso, dos salões de Genebra. Ganhariam os Estados Unidos, a Rússia e a Europa.

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