Opinião

Fuck off! A família Roy está de volta

Raquel Costa


Mudei recentemente o meu toque de telemóvel para o tema de abertura de “Succession”. Este é o meu nível de entusiasmo com o regresso da série da HBO. Se nunca a viu, eu faço-lhe um resumo (criativo). Lembra-se de “Dallas” e “Dinastia”, em que magnatas e as suas respectivas famílias problemáticas entram em disputas intermináveis por poder? Transporte essa lógica para o século XXI, troque o petróleo por um império de média (com mais uns negócios obscuros pelo meio) e tem, muito resumidamente, a premissa de “Succession”. Roy Logan (Brian Cox) é o pater familias deste clã e anda há duas temporadas a tentar decidir a que filho vai deixar o seu império. Os filhos, um bando de putos mimados e privilegiados, são Kendall (Jeremy Strong), Roman (Kieran Culkin), Siobhan (Sarah Snook) e Connor (Alan Ruck). Há também uma série de satélites lambe-botas e um primo, Greg (Nicholas Braun), que (só) parece desajustado daquela realidade alucinada.

A estreia da terceira temporada está marcada para 18 de Outubro, mas já tive a oportunidade de ver os primeiros episódios (obrigada, HBO Portugal). Spoilers não há nem pode haver, mas eis o que se pode dizer: o nível de descontrolo emocional e megalomania de Kendall está nos píncaros; Logan continua a fazer dos filhos gato-sapato (e a insultá-los de forma selvática e, temos de admitir, hilariante), e estes continuam à espera de um sinal, ainda que ténue, de amor e aprovação do papá; a tensão sexual entre Roman e Gerri (J. Smith-Cameron) é tão divertida quanto incómoda; e o primo Greg está cada vez mais... bem, cada vez mais Greg. O império ATN está no epicentro de um turbilhão mediático e legal e há, no primeiro episódio, algumas semelhanças com a recente fuga de uma conhecida figura portuguesa para um destino paradisíaco. E mais não posso dizer.

Porque é que nos dá prazer ver uma família de multimilionários privilegiados espetarem facadas nas costas uns dos outros? Porque faz-nos, comuns mortais, sentir moralmente superiores. Como se, caso estivéssemos na posição deles, não fizéssemos exactamente o mesmo. Ou pior. Não há nada de original no argumento da série criada por Jesse Armstrong (a história, em traços largos, é o “Rei Lear” de Shakespeare), mas o apelo está exactamente nesse aspecto. Nesse e no facto de, por muito que o autor o negue, ser evidente que a história é muito, muito, muito inspirada em Rupert Murdoch e nos escândalos em torno do império de média News Corporation. E agora, como diz Roy Logan um zilião de vezes... fuck off!

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