Opinião

Francisco Rodrigues dos Santos

André Pardal


Cruzei-me com o Francisco pela primeira vez há 23 anos, nos claustros do vetusto e único Colégio Militar, ainda “rata” (como são apelidados, carinhosamente, os alunos mais novos), estando já eu uns anos (poucos) mais adiantado no percurso académico. Apesar de não ser dele graduado directo (alunos mais velhos que comandam os mais novos), logo reparei no seu carácter, perspicácia e quadro de valores ímpar.

Anos mais tarde, os nossos percursos voltaram a encontrar-se nos bancos da Faculdade de Direito de Lisboa e, também, na escola de excelência que é a sua associação académica, onde tive a oportunidade de percepcionar a capacidade de liderança e fascínio que exercia sobre os colegas, independentemente das suas ideologias ou origens económicas e sociais.

Desde então, na advocacia, na Juventude Popular, no nosso Sporting e no seu CDS-PP, mantendo a nossa profunda (que não escondo) relação de respeito e amizade, acompanhei o seu percurso de sucesso, concordando e frontalmente discordando (como deverão fazer os verdadeiros amigos) de muitas das suas posições públicas.

Os tempos não estão fáceis para este meu amigo, e é por isso mesmo que agora me debruço sobre a sua pessoa. Conhecendo o seu carácter, sentido patriótico e de missão, sei que nunca desistirá e que nunca os seus princípios e valores se alterarão por mera táctica ou interesse que não seja o nacional ou do colectivo.

Com essa frontalidade, discordei do adiamento do congresso electivo do CDS, inicialmente previsto para o próximo fim-de-semana, uma vez que – em democracia como na guerra – nunca se deve evitar o confronto quando temos a certeza da razão das nossas convicções e independentemente de se antever (o que não tenho como verdade neste caso concreto) uma derrota.

Contudo, devo admitir que, embora não seja militante do seu partido, o que lhe estão a fazer desde o momento em que assumiu a liderança do mesmo, há quase dois anos, ultrapassa tudo o que é admissível em democracia.

O CDS, como partido fundador do nosso regime democrático, que forneceu ao país figuras incontornáveis como Diogo Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, Adriano Moreira ou Francisco Lucas Pires, e que foi fundamental em vários períodos da nossa história recente, transformou-se nos últimos anos num feudo ou coutada para determinadas pessoas ou grupos de interesses. Pessoas essas que, alimentadas por uma comunicação social amiga, frequentadoras dos mesmos círculos sociais e que, na sua grande maioria, em nada se distinguem ideologicamente da esquerda que (des)governa o país há tempo demais – a tal direita fofinha –, nunca admitiram a derrota no congresso anterior, movendo uma verdadeira guerra de guerrilha permanente ao apelidado (e difundido, tentando a sua menorização ou infantilização) Chicão, com capítulos verdadeiramente deploráveis (aos olhos de todos os portugueses) passados a cada conselho nacional e sucessivo anúncio de desfiliação.

Recorde-se que foi este grupo de notáveis, que lideram o CDS há décadas, os responsáveis directos pelos excelentes resultados a que o partido foi votado nas últimas eleições legislativas, com o seu estratega máximo a abandonar (literalmente) o barco da vice-liderança do CDS, trocando-o por um prato de lentilhas na administração dourada da Galp.

Em suma, nestes que não são momentos fáceis ou de grande simpatia, a minha homenagem vai para uma pessoa que luta (lutou e lutará) sempre pelas suas convicções, que, independentemente dos vários erros que cometeu, em muito tem sido injustiçado pela opinião pública e publicada, e que ainda surpreende e surpreenderá muito o nosso país político.

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