Opinião

Francisco e os Minimeus

Rui Rocha


Em artigo publicado, na passada terça-feira, na edição online do Expresso, Francisco Louçã, conselheiro de Estado que não há muito tempo exercitou o seu peculiar sentido de humor a propósito do Holodomor, anunciou a chegada dos McCarthiminions, agentes que estariam ao serviço de uma manobra concertada de conversão de “selvagens” e “recalcitrantes” em adoradores da NATO.

Com a plasticidade intelectual que o caracteriza, Louçã inclui na falange macarthista um conjunto não identificado de opinadores a quem a designação, de facto, ficaria bem – aqueles que, a propósito do acto de agressão de Putin, dirigem um anátema injusto e inaceitável a todos os russos –, outros que estarão a aproveitar-se das circunstâncias para normalizar o Chega e mais alguns, referidos pelo nome no índex compilado pelo conselheiro, nos quais me incluo.

Ora, de que gravíssima caça às bruxas estou acusado nesse auto, que heresia pratiquei, o que faz de mim um McCarthy em ponto pequeno e amarelado, o que terá chamado a atenção do olhar severo do nosso guardião da fé? Pois bem, acusei o Bloco de Esquerda, aqui nesta coluna, de não ter uma posição credível de condenação da Rússia.

E sobre esta concreta acusação digo, ai de mim, que é tudo verdade. Ouvi Mariana Mortágua no “Linhas Vermelhas” da SIC Notícias, dias antes da invasão, acusar o Governo ucraniano de ser corrupto e de extrema-direita, justificando as ameaças de Putin. Vi a publicação dos Jovens do Bloco a querer impor neutralidade à Ucrânia. Li sobre o voto contra de autarcas bloquistas de Setúbal quando foi proposta a condenação da invasão. Assisti à participação de Catarina Martins numa manifestação a favor da Ucrânia, com o objectivo de tirar benefício político, depois de se ter recusado a subscrever o respectivo manifesto. Como poderia então, Deus me perdoe, considerar que a novel posição sobre a Ucrânia destes Minimeus de Louçã é credível?

Todavia, há pior. Também li o que Louçã escreveu no Expresso em 15 de Fevereiro, dias antes da invasão, e que aqui transcrevo: “O partido da guerra é esta ponte entre Washington e Kiev, em que perpassa um perfume a pólvora que entusiasma algumas chancelarias, em particular os governantes que, como os da Ucrânia, buscam na estratégia de tensão criar um sentimento de unidade nacional que lhes resolva a fragilidade da liderança, obter os fundos suficientes para simular um governo e garantir a protecção militar que permita ameaçar os vizinhos. Esse partido marca a data da guerra, incentiva Moscovo a avançar, mantém a imprensa ocupada com sinais, retira embaixadores em tropel, faz fugir os deputados mais impressionáveis e pinta a tragédia, mesmo que a população ucraniana pareça desconfiada e dê aos enviados das televisões imagens de menos pânico do que o adequado para compor tanto apocalipse.”

Por isso considero igualmente que a condenação à agressão de Putin que Louçã encena no tal artigo desta terça-feira tem o mesmo problema de que enfermam as proclamações recauchutadas dos seus Minimeus: lamentavelmente, nem estas são credíveis, nem aquela é séria.